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Especialista dá dicas para lidar com as perguntas difíceis das crianças sobre temas como morte, sexo e separação

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Ana Carolina para Agência São Joaquim Online

Uma das situações mais comuns para quem convive com crianças é ouvir os questionamentos delas. De certa forma, nunca deixamos de perguntar o porquê dos fatos e eventos da vida, sendo assaltados com dúvidas, cada vez mais complexas, até o fim dela. Mas os pequenos são naturalmente curiosos e costumam querer saber sobre diversos temas que variam de acordo com cada faixa etária.

O psicólogo Adriano Gosuen, consultor do Ético, sistema de ensino da Saraiva, explica que as crianças perguntam o tempo todo, geralmente a partir dos 2 anos de idade, desde que se sintam confortáveis e confiem em quem elas perguntam. “As questões ganham complexidade por volta dos 3 ou 4 anos, quando elas passam a buscar entender melhor quem são ela e os outros, dentro de seu universo social. Aos 5 anos chega a fase dos grandes porquês, quando as dúvidas podem ser complexas até mesmo para os adultos”, explica.

Para ajudar os pais a melhor lidar com as perguntas comuns, o especialista recomenda três atitudes: mostrar-se interessado nas questões que elas têm a fazer, respeitar a curiosidade por mais que a resposta pareça óbvia ou que o tema seja espinhoso e responder as questões de acordo com a maturidade e curiosidade da criança, ou seja, com sua capacidade de entender e se satisfazer com a resposta.

Quanto ao conteúdo das respostas, o psicólogo consultor do Ético orienta que os pais formulem as explicações de acordo com o entendimento e a maturidade da criança, usando para isso o conhecimento que têm e dentro daquilo que acreditam. “Tirar a dúvida da criança, falando a verdade, é sempre o mais indicado. Uma resposta ‘porque sim’ pode não afetá-la, mas não é o mais adequado. Primeiramente, porque a criança continuará com a dúvida e passará a usar sua imaginação para completar as lacunas de seu entendimento, podendo fazer inferências incorretas e afetando seu bem-estar emocional. Em segundo lugar, a constância de respostas ‘porque sim’ pode levar a criança a parar de perguntar para quem responde assim, fazendo com que estes adultos se tornem interlocutores menos privilegiados para suas questões. O que certamente os pais não querem!”, diz.

No caso de o adulto sentir-se desconfortável com a pergunta ou de não saber o que responder, Adriano Gosuen defende que o melhor a fazer é dizer que vai pensar na questão e responder mais tarde, explicando que aquela não é uma boa hora. O importante é realmente ir em busca da solução e respondê-la em um momento adequado. Mas se a pergunta for no sentido de questionar uma ordem ou tiver um tom de desafio, a resposta é clara: “nem sempre a gente faz o que quer, mas deve fazer o que precisa e agora você precisa fazer isso! Essa explicação é mais adequada do que dizer ‘porque eu mandei’, o que indica à criança que aquela determinação é um desejo arbitrário do adulto, em vez de ensiná-la que há situações que devem ser enfrentadas por todos, mesmo que não sejam agradáveis”, esclarece Gosuen.

É comum surgirem temas delicados como sexo e morte, que geram muitas dúvidas nos adultos sobre quais informações o pequeno deve ter. A dica do psicólogo é perguntar as razões da questão e, ainda, onde ela ouviu falar daquele assunto. Além de dar mais tempo para o adulto pensar, a explicação dá uma pista de qual é a real dúvida, facilitando a elaboração da resposta para atender a curiosidade da criança. “Certa vez um menino de 4 anos queria saber o que é sexo. Ao conversar, a mãe descobriu que ele tinha ouvido dois adolescentes do prédio dizendo que queriam ‘muito sexo hoje à noite’. Neste caso, dizer ‘eles querem namorar bastante essa noite’ já é a resposta suficiente. Mas, para evitar que o menino saia falando que quer fazer sexo com as amiguinhas na escola, vale explicar que, em geral, as pessoas falam ‘namorar’. Isso evitará constrangimentos”, diz.

Quanto à morte, é comum que as crianças toquem no assunto ao se depararem com o falecimento de um parente ou bicho de estimação. Então a primeira parte da explicação pode incluir um esclarecimento sobre o ciclo da vida: plantas, animais e pessoas nascem, crescem e morrem, porque um dia o corpo para de funcionar. Adriano Gosuen explica que muitas crianças têm essa curiosidade porque se sentem inseguras, com medo de que os demais a sua volta morram cedo e ela fique só. Por isso é importante assegurar que ela estará sempre protegida e cuidada por algum adulto querido.

“A explicação do que acontece depois da morte vai depender da crença religiosa de cada família. Já vi crianças bastante preocupadas com explicações do tipo ‘foi morar no céu’, pois tinham medo que seus entes queridos viessem a cair das nuvens e se machucar. Uma opção, de acordo com o credo familiar, é falar que a pessoa ou o animal foi morar em um lugar onde só os mortos vão e que eles estão bem e felizes lá, junto com outros parentes que já morreram”, sugere.

E se a dúvida for sobre de onde vêm os bebês, a resposta também deve ser simples, de acordo com o nível de curiosidade e a maturidade da criança. O consultor do Ético, sistema de ensino da Saraiva, diz que a explicação pode ser direta, como “o bebê vem de dentro da barriga da mãe dele”, ou mais elaborada, do tipo “o papai e a mamãe se amam e querem ficar junto. Quando eles ficam juntos, eles namoram”.

Já em relação à separação dos pais, é comum haver dúvidas importantes, tais como se o pai ou a mãe vão continuar a ser pais delas, se eles ainda terão contato e se continuarão sendo amados. Caso a criança pergunte os motivos da separação, o psicólogo orienta dizer algo que ela entenda, tal como ‘nós dois queremos morar separados agora’ ou ‘a gente brigava bastante, então vamos morar separados para brigar menos’. A recomendação é evitar dizer que o amor acabou, porque a criança pode imaginar que também não há mais amor de um de seus pais em relação a ela.

“É importante ressaltar que a única mudança é que um dos dois vai morar em outro lugar e que a criança passará a ter duas casas, com a garantia de que sempre verá aquele que não estiver morando com ela. Neste sentido, para o bem dela, é preciso evitar a alienação parental – quando um dos pais impede o outro de ter contato com os filhos – e que, de fato, as visitas sejam regulares, previstas e rotineiras para garantir a estabilidade emocional da criança. E, de tempos em tempos, vale checar como ela está entendendo e sentindo a separação fazendo perguntas indiretas sobre o tema”, conclui Gosuen.

 

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