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A era pós-antibiótico está vindo aí (ou já chegou)

pós-antibiótico

Jéssica Maes para Agência São Joaquim Online

Em um relatório pioneiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou hoje que as infecções bacterianas que não podem ser tratadas com antibióticos de último recurso surgiram em todas as partes do mundo. Isto significa que os pacientes que forem infectados pela bactéria E. coli, por estafilococos ou contraírem pneumonia não têm uma forma eficaz de controlar suas doenças. Em alguns países, mais da metade das pessoas infectadas com a bactéria da K. pneumonia não responderá a carbapenemas (uma classe de antibióticos beta-lactâmicos com um largo espectro de atividade antibacteriana). Um percentual semelhante de pacientes com infecções de E. coli não será ajudado ao tomar antibióticos de fluoroquinolonas (um dos tipos de antibióticos mais tóxicos atualmente em uso).

O crescimento de cepas de bactérias resistentes significa que as infecções etsão mais difíceis ou impossíveis de controlar, o que poderia levar à rápida propagação de doenças e maiores taxas de mortalidade, especialmente entre pacientes de hospital. Entretanto, ainda mais preocupante, dizem os especialistas como Martin Blaser – diretor do programa de microbioma humano no Centro Médico Langone da Universidade de Nova York (EUA) e autor do livro “Missing Microbes” – é a forma como estes antibióticos estão afetando a composição de boas e más bactérias que vivem dentro nós, o nosso microbioma.

“O primeiro grande custo dos antibióticos é a resistência”, diz. “Porém, o outro lado da moeda é o fato de que os antibióticos estão extinguindo o nosso mocrobioma e alterando o desenvolvimento humano”.

Blaser afirma isso com base em pesquisas crescentes que mostram que os trilhões de bactérias que vivem em nossos corpo desempenham um papel fundamental na nossa saúde. As bactérias e micróbios não são sempre inimigos de um corpo saudável. Eles podem ser aliados como quando nos ajudam a digerir alimentos, combater bacilos causadores de doenças e muito mais.

Os primeiros estudos sugerem que diferentes comunidades de bactérias no intestino, por exemplo, podem afetar o nosso risco de obesidade e de desenvolver certos tipos de câncer. Outro trabalho intrigante sugere que bebês nascidos por via vaginal, expostos à flora do trato reprodutivo da mãe, podem desenvolver diferentes sistemas imunológicos que os prepara melhor para combater os alérgenos em comparação com aqueles que nascem via cesariana. Mas o cientista adverte que o uso excessivo de antibióticos está lentamente acabando com as boas bactérias e isto pode ter consequências graves para a saúde pública daqui a alguns anos.

O relatório da OMS destaca como as decisões individuais sobre a prescrição de antibióticos podem ter consequências generalizadas, até mesmo globais. “Se eu prescrever um medicamento para o coração de um paciente, este remédio vai afetar aquele paciente”, explica Blaser. “Porém, se eu prescrever um antibiótico, este antibiótico vai afetar toda a comunidade de alguma forma. E o efeito é cumulativo”.

O primeiro passo para reverter esta situação, afirmam especialistas em saúde pública, é reduzir o nosso excesso de prescrição de antibióticos para infecções menores que não necessariamente os exigem – isto se aplica tanto a pessoas, quanto a animais para produção de alimentos, tais como aves e gado. Assim como os seres humanos, os animais podem abrigar e passar bactérias resistentes aos medicamentos, e a ampliação do uso de antibióticos na agricultura nos últimos anos tem contribuído para o crescimento de bacilos mais agressivos. Em casa, as pessoas podem se abster de utilizar sabonetes antibacterianos, que também ajuda as bactérias a se tornarem mais resistentes.

“O que precisamos urgentemente é de um plano mundial contínuo de ação que prevê o uso racional destes medicamentos para que antibióticos de qualidade garantida alcancem aqueles que precisam deles, mas que não estejam obsoletos pelo uso em excesso ou com preços fora de alcance”, aponta Jennifer Cohn, diretora médica da Campanha de Acesso do Médicos Sem Fronteiras.

Isso também pode ajudar a proteger os nossos microbiomas, que por sua vez poderiam retardar o aparecimento de doenças crônicas, como obesidade, câncer e alergias. Como os resultados da OMS mostram, a resistência aos antibióticos é agora um problema de todos. [TimeOMSRichard Dawkins]

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