Cultura

Leia aqui o texto de Fernando Gabeira relatando o processo da política no Brasil

 

 

Por Artur Hugen

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Fernando Gabeira/ Jornalista – O Estado de S.Paulo

Na década de 1960, John F. Kennedy chamou os melhores e mais
brilhantes acadêmicos e empresários para compor seu governo. Apesar
disso, ou mesmo por causa disso, muitos erros foram cometidos,
sobretudo na política externa dos EUA. No primeiro governo de Barack
Obama, a escolha de um Prêmio Nobel de Física, Steven Chu, para ocupar
a pasta da Energia ainda representa uma tentativa de se associar à
competência e ao brilho intelectual. Mas a verdade é que a pretensão
de Kennedy parece ter sido enterrada pelo curso da política e suas
duras realidades.

O Ministério de Dilma Rousseff é uma espécie de fim da picada no
caminho aberto por Kennedy. Ao começar, Lula chegou a ter alguns
notáveis, como Márcio Thomaz Bastos, na Justiça. Desde a
redemocratização, entretanto, não se escolhia um Ministério tão opaco
e alheio aos temas que terá de enfrentar.

Novo governo, novas ideias. Esse era o slogan de Dilma. Foi para isso
que as pessoas brigaram nas ruas e nas redes, bloqueando amigos,
estigmatizando elites e malhando reacionários de todos os matizes?

No ano anterior à Olimpíada, Dilma entrega o Esporte à Igreja
Universal. Já entregara a Pesca ao senador Marcelo Crivella, que, ao
assumir, declarou que não sabia nem como se combinavam isca e anzol.
Agora, tudo indica que o novo ministro dos Esportes é daqueles que num
jogo de futebol perguntam: quem é a bola?

Na Ciência e Tecnologia, Dilma optou pelo PCdoB. Aldo Rebelo é o nome.
Ele é contra inovações científicas que ameacem o emprego e chegou a
apresentar um projeto proibindo-as. Emocionalmente, é uma posição
compreensível. Mas equivale à dos trabalhadores que destruíam máquinas
no princípio da Revolução Industrial. O movimento, no início da
primeira década do século 19, chamava-se ludismo por causa do nome de
um dos seus líderes, Ned Ludd.

Ter uma posição de defesa do emprego, mesmo contra o avanço da
produtividade, é uma escolha de que discordo, respeitando-a. Mas nesta
altura da revolução digital, nomear para Ciência, Tecnologia e
Inovação um quadro que, de certa forma, se opõe a esse processo
irreversível, parece-me um absurdo.

O ritmo de inovação é vertiginoso na tecnologia da comunicação. Para
acompanhá-lo Dilma escolheu Berzoini, fixando-se no único aspecto que
parece interessar-lhe: como dominar ou, ao menos, neutralizar as
grandes empresas do ramo.

Os meninos que hoje nos acusam de reacionários talvez não conheçam bem
o mundo político brasileiro. Quem é Jader Barbalho? Por que chamavam
Eliseu Padilha de Eliseu Quadrilha, no Congresso?

Nada disso talvez possa interessar-lhes. O bem triunfou sobre o mal e
o Brasil segue sua trajetória vitoriosa rumo ao futuro, liderado pelo
coração valente de Dilma Rousseff.

Kennedy buscava seus quadros na academia e na indústria. Dilma
procura-os nas brechas do Código Penal. Vai ser preso logo? Aguenta
pelo menos seis meses no cargo?

Tudo bem. Vocês são o progresso e se preparam para realizar um governo
novo, com novas ideias. No intervalo, jogam umas pedras na oposição,
desqualificam os argumentos adversários.

Barbalhos e Padilhas, o esporte entregue a Deus e as inovações ao
PCdoB, o governo e seus aliados parecem ter conseguido o impossível:
uma realidade paralela, um Brasil do João Santana e desses caras que
usam a imagem de Che Guevara como perfil, insultam à vontade e quando
são apertados contra a parede alegam: mas o FHC também fazia.

Sem norte moral próprio, alguns usam o ex-presidente como referência.
Se Fernando Henrique Cardoso insultasse velhinhos num asilo, eles
também o fariam sem nenhum temor: isso pode.

Dilma conseguiu construir o pior governo possível para enfrentar a
mais grave situação do País. Envolta no escândalo da Petrobrás, ela
diz: alguns funcionários foram colhidos pelo combate à corrupção. Nada
mais acidental do que isso. Houve um surto de gripe e alguns
funcionários acabaram contraindo a doença.

A corrupção na Petrobrás era um dado sistêmico e fazem tudo para
esconder o saque bilionário. Prometem um governo com novas ideias e
propõem o bispo Macedo como patrono dos nossos esportes, além de uma
posição quase ludista para o Ministério da Ciência. Extrapolaram. Não
deixam a mínima esperança de que pelo menos tenham a intenção de fazer
algo novo.

Certas experiências históricas podem acabar na cadeia. Algumas pessoas
choram comovidas diante do relatório da Comissão da Verdade. Tempos
terríveis, é compreensível.

No futuro, entretanto, podem lamentar, envergonhadas, quando surgir a
verdade sobre seu próprio período de governo. E essa verdade vai
aparecer em todo o seu esplendor. Companheiros que agitam suas
bandeiras vermelhas hoje podem, numa escala menor, ficar tão
constrangidos como os que, no passado, marcharam com Deus pela família
e propriedade .

Muitos assistem a tudo isso com o dedo médio apontado para a tela. Um
dedo duro pode ser visto de várias formas. Mas eles sabem o que estou
dizendo. Que tal irem comemorar na casa do Barbalho?

Com a formação de seu novo governo Dilma está sendo cruel até com quem
não votou nela. Diria: principalmente com quem não votou nela. Temiam
um circo de horrores? Vejam isto, para começo de conversa.

Corre na política uma lenda de que basta ter um bom ministro da
economia: o resto não conta. Ela foi adotada por Dilma. Parece um
materialismo vulgar. Mas é pior do que isso. É uma perigosa fuga da
realidade. Como se educação, energia, ciência, comunicações, esportes
e até pesca em nada tivessem relação com a própria economia. E como se
não fosse também uma realidade o sentimento de desencanto que nos
comunica a única certeza da Dilma: ninguém do primeiro escalão será
preso nos próximos meses. Temos um Gabinete de ministros. Todos em
liberdade.

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