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Relato: O Desafio de passar pela temível Ponte das Goiabeiras

Um casal Overlander relatam sua passagem pela mais temível e perigosa ponte entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a desafiadora Ponte das Goiabeiras, no Caminhos da Neve, que interliga as Serras Gaúchas a Serra Catarinense via São Joaquim em condições deploráveis.

O drama de caminhoneiros, produtores e usuários para a recuperação da mais desafiadora das pontes existentes, hoje, no Sul do Brasil.

Quem arriscaria passar por ela neste estado?

Mas acredite, existe muitas pessoas que se arriscam a passar, não só por uma plena aventura, mas constantemente pela mais pura necessidade. A coluna DellaRosa, conversou com um casal que em viagem, percorreram o temido obstáculo, e relatam como foi esta experiencia, confira:

Aqui vamos relatar tudo, nos mínimos detalhes sobre o Caminho da Neve e da Rota das Barragens, que nós fizemos, pela Ponte das Goiabeiras – Divisa SC e RS. Mas aperta bem o cinto de segurança, porque a estrada foi sinistra!!!

Aqui. Somos uma dupla. Ana e Rodrigo Hoffmann. Ambos de Florianópolis. Overlanders. Apaixonados pela estrada e pela Serra Catarinense e gaúcha. Viajamos a bordo de uma 4×4, sendo uma espécie de casa rodante que tem tudo que precisamos, procurando locais inóspitos, conhecendo, trilhando e compartilhando lugares e experiências.Somos completamente apaixonados pela nossa Serra Catarinense e sempre que podemos pegamos a estrada é nossa bússola aponta para lá.

 

Após sairmos de São Joaquim e percorremos uma grande parte do Caminho da Neve, chegamos finalmente no ponto culminante do trajeto: a Ponte das Goiabeiras – na divisa de SC com o RS, ligando os municípios de São Joaquim e Bom Jesus. A ponte, um misto de trilhos de ferro, madeira e concreto, se encontra em péssimas condições, sendo sua manutenção realizada pelos moradores locais e pelos que por ela trafegam. Com muito cuidado, atravessamos ela, e a cada centímetro percorrido lembrávamos das dificuldades e do grande descaso com o nosso povo Serrano. Estávamos no meio da tarde e ainda faltavam alguns quilômetros (e horas) para chegarmos no primeiro destino da Trip, onde passaríamos a noite. ……

Como disse, somos overlanders, não costumamos andar por onde os outros andam (rodovias asfaltadas,por exemplo)… por isso somos adeptos de 4×4 e temos tudo que precisamos no carro, por isso damos prioridades por estradas pouco trafegadas, com um grau de dificuldade em que carros de pequeno porte não trafegam.

Não aconselhamos veículos de pequeno porte e sem preparo trafegarem pelo Caminho da Neve se não houver necessidade, a estrada está em péssimas condições. Algumas peças do nosso carro estavam próximas de serem substituídas, e aquela estrada nos obrigou a antecipar essa manutenção. Outras peças também ficaram danificadas na suspensão e algumas molduras laterais se soltaram devido a tanta trepidação, o que nos deu um bom prejuízo..

Quando dizemos que a estrada é uma parte esquecida, não estamos sendo poéticos. É esquecimento e descaso. A ponte das goiabeiras foi a ponte pior que passamos na nossa vida (olha que conhecemos o interior melhor que muito tropeiro). Extremamente insegura, quebrada, de difícil tráfego, colocando a risco a vida de quem por ela atravessa.
Não recomendamos. O Caminho da Neve tem as paisagens mais lindas, o lugar é extremamente maravilhoso, apesar de morarmos no que os turistas chamam de Paraíso (infelizmente não concordamos) sempre que podemos, largamos a Ilha da magia e fugimos para algum recanto escondido nos campos de cima da Serra.

Mas se me perguntassem se eu voltaria? Sim! Com certeza! É essa dificuldade que nos move e faz retornar. Procurar esses lugares escondidos, pouco trafegados, isolados e com poucos recursos.
Lamentamos pelo povo que mora na região, que precisa usar realmente o local como meio de locomoção de trabalho, escola, sobrevivência e subsistência.
Se uma rodovia asfaltada ajudaria? Até pode ser, mas perderia o charme do lugar. Acreditamos que manutenções na estrada, com uma boa cobertura de rípio ou outro material natural deixaria a estrada trafegável. Uma boa manutenção ou construção de uma nova ponte, trazendo segurança e dignidade para o povo da região seriam soluções para despertar um turismo sustentável para o lugar.

Como falei… a estrada castiga o carro, a paciência e a alma do viajante. O Rodrigo até brincou que tudo balançava no carro, até o documento do carro dentro do porta luvas. Mal conseguíamos passar a 2ª marcha e em muito pontos utilizar a 4×4 reduzida. Mas andar devagar tem as suas vantagens. Nos faz perceber com mais afinco a natureza exuberante a nossa volta. Como tínhamos que parar diversas vezes para checar os Pneus, as molduras, suspensão, aproveitávamos esse momento para nós maravilharmos com o silêncio do inóspito caminho da neve.

Dirigimos por horas (literalmente mesmo) sem cruzar na estrada com qualquer automóvel. A sensação era de isolamento total. O silêncio absoluto era cortado somente pelo vento balançando as araucárias, do Rio correndo nos arroios e por instantes ouvíamos os pios das corucacas e dos pássaros ao nosso redor. Para nós estarmos ali era uma sensação única, de paz absoluta.
Não vamos mentir que quando nos deparamos com a ponte das Goiabeiras, uma sensação de dúvida, se valeria a pena atravessarmos, mas encontramos um pessoal na beira da ponte que brincava com um jipe na laje das águas geladas. Nos afirmaram que seguro não haveria de ser, mas que estava passando caminhão de maçã e alguns bitrens de madeira (toras).
Inicialmente passei primeiro a pé, para realizar a filmagem e fotos do carro.

Após eu ter passado a pé, pulando entre uma grade e outra, e sentindo a maleabilidade das tábuas de madeira entrecortadas. A ponte era um misto de madeira, concreto e ferro, lembrando uma cena de filme antigo, sentia a força do Rio Pelotas correndo embaixo dos meus pés, apesar da baixa temperatura de inverno, o frio que eu sentia era de medo. O sol da tarde, refletia nas águas turbulentas do Rio Pelotas. Se eu caísse ali, talvez jamais meu corpo seria encontrado.

Com as pernas bambaleantes cheguei a cabeceira da ponte do lado gaúcho. Me sentei a margem da ponte e passei o rádio para o Rodrigo pedindo que aguardasse um pouco, pois minhas mãos estavam trêmulas para fotografar. Tomei fôlego, respirei fundo, entrei no espectro do lugar. Novamente escutava a força do Rio Pelotas e o vento trazia a brisa fresca e úmida para as minhas narinas. Me posicionei, arrumei o tripé da câmera, encontrei o foco é ajustei a câmera. Passei o rádio para o Rodrigo que pacientemente aguardava do lado Catarinense.

Perguntei pelo rádio se ele tava preparado, pois a experiência seria única. Ele sinalizou me dando um sinal com os faróis do carro, como quem dá uma piscada com os olhos. Pedi que se atentasse a qualquer sinal de perigo.
O Rodrigo trazia a caminhonete, centímetro a centímetro, o peso da nossa casa rodante estalava as grades de ferro da ponte, cada vez que passava por cima das emendas, fazendo ficar atenta e esquecer de acionar o obturador da câmera.
A passagem foi tranquila, apesar de perigosa. Quando finalmente chegou na cabeceira, o Rodrigo desceu do carro e veio verificar a proeza que tinha acabado de fazer. Perguntei a ele se tinha sentido medo, rindo, entrou no carro e me disse que não saberia se passaria de novo…
Já em solo gaúcho, nos despedimos da ponte, sem saber se da próxima vez nos encontraríamos novamente, uma vez que as más condições em que ponte se encontrava, não se demorará a cair de vez.
Dali ainda seriam algumas horas e quilômetros para chegar no nosso primeiro destino. A magnífica Barragem do Rio dos Touros.
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Sigo a risca o conselho que escuto todos os dias, dos pacientes que cuido:
– aproveita tua vida!
Aprendemos com estrada! Os obstáculos, perrengues, horas dentro do carro, poeira, lama, chuva, sol. Aprendemos a ser tolerantes com o tempo e suas variações. Mas não trocamos um hotel 5 estrelas por nossa barraca montada no alto de uma colina com um teto de 5 bilhões de estrelas. Não trocamos pratos gourmets por um prato rápido e improvisado feito na cozinha do carro. Ser overlander, nos trouxe muitos ensinamentos, nos ensinou a ser gratos, a viver um estilo de vida mais leve onde realmente menos é mais, nos ensinou que o gasto que temos em uma viagem nos deixa mais ricos (de espírito). E que por fim não precisamos de coisas, nossas prioridades são outras.
Ana – enfermeira e Rodrigo – metalúrgico.
Veja em vídeo os momentos relatados pelo casal
@roadtrip.4×4

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