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Um dia, ou outro…

Por Henrique Córdova

Choro, com lágrimas precoces,
As faces lívidas e melancólicas de teu desencanto;
Sorrio, depois, expondo brevemente os dentes alvos,
Ante o espelho transitório de teus azuis olhos lúcidos.
Envolvo-me na rede inteiriça e matriz de tua mente limpa,
Reflito teus pensamentos sem antecedente arquitetura,
Penduro-me com segurança em tua última frase inacabada,
Sem preocupar-me, um só minuto, com o seu infalível ponto final.
Observo, atento em teu andar, a dança discreta de teu belo corpo,
Ao som de todas as notas aladas das claras manhãs estivais.
Ouço tuas palavras, nem graves e nem agudas, mas lindas,
Que jorram suaves da fonte mais profunda de tua vida.
Sinto teu hálito perfumar a moldura envelhecida de minha face;
A tua inspiração renovar cada momento do ar que me circunda;
Teus ouvidos delicados acolherem meus tímidos e vacilantes sussurros,
Como se fossem receptáculos de longínquas mensagens oraculares.
Teus braços compassivos se abrem às infindas dores da humanidade;
Enlaçam com eufórica intensidade os cenários fugazes da alegria.
Um dia, ou outro, enfim, todo o teu corpo, em plena harmonia, exala felicidade
Que imprime, em meu descolorido ser, a fina paisagem da paradisíaca cidade.

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