Pedofilia: A História de Larissa

Meu nome verdadeiro não é Larissa, mas a história cruel que vou te contar é real e acontece todos os dias com crianças perto de você. Se você conhece algum caso, denuncie! Ajude a preservar a inocência de nossas crianças.

Essa história pertence a uma série de reportagens sobre Pedofilia. Traremos histórias reais de pessoas que sofreram abusos durante a infância e adolescência.
Um dos mais temidos crimes contra a infância, a pedofilia pode ser evitada prestando atenção aos sinais de comportamento das crianças.
Pedimos que tenham respeito as histórias contadas, reflitam e observem suas crianças. Ao sinal de mudança de comportamento, procure ajuda. Em casos de suspeita de abusos, denuncie!
Mais informações sobre Pedofilia você encontra na primeira matéria da Série:
Pedofilia: É preciso entender sobre o assunto e denunciar
Atenção: Nomes e informações pessoais serão modificados para preservar a identidade das vítimas.

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Setembro de 2003. Com a proximidade de meu aniversário, minha avó se antecipou a me presentear, como de costume, com roupas. Desta vez o número de peças era maior, já que no final do ano viajaria com minha turma de série para a excursão que é um momento aguardado por todo estudante colegial. Amei tudo que minha avó me deu, quis provar na hora. Exibida que sou, vim fazendo firulas e piruetas para que ela, minha mãe e minha irmã apreciassem o caimento das novas vestimentas. Por meu descuido, derrubei um plástico que envolvia uma das roupas, o que acabou ocasionando uma queda quando passei apressada por cima dele. Estava com bastante dor e com dificuldades para me levantar do chão. Minha mãe angustiada pela dor da filha não tardou a lembrar do primo dela que teria uma ótima pomada em casa e costumeiramente fazia massagens nos familiares mais próximos. Ela me levou até a casa dele pra receber o alívio que acreditava que eu teria. Mas o desconforto daquele dia eu carrego até hoje. E não, não por causa do tombo. O primo de minha mãe era uma espécie de pilar familiar, alguém acima de qualquer suspeita. Financeiramente o mais bem sucedido entre seus irmãos e na época até entre os primos. Espiritualmente desenvolvido, fez o entorno familiar acreditar que ele tinha poderes de fazer a “imposição das mãos”. Pois bem, alguém de confiança absoluta.

Chegamos à casa dele onde estava acompanhado da esposa e de duas filhas. Minha mãe explicou o ocorrido e ele muito solícito começou a se preparar. Pediu para que subíssemos as escadas até ao quarto dele, onde seria mais confortável para meu atendimento. Estavam minha mãe, minha irmã, a esposa e as duas filhas dele no quarto quando ele decidiu que seria melhor que todas saíssem para que eu ficasse mais à vontade. Elas se foram, com a exceção de uma das filhas que era também minha amiga pela semelhança de idade. Ele pediu novamente que ela saísse e com a negativa dela ele começou a se irritar. Teve a ideia de pedir que ela descesse pra fazer um chá pra mim. Ela relutante continuava no ambiente. Até que ele ficou muito irritado e gritou com a menina pra sair imediatamente e fazer a droga do chá para mim. Assustada, ela infelizmente se foi. Ele me colocou sentada na cama e se sentou atrás de mim com as pernas abertas e o corpo colado no meu onde pude perceber sua excitação. Ele afastou as minhas pernas e começou a me tocar, em cima da cama que ele dormia com a esposa, sem eu entender ao certo o que estava acontecendo. Com um sussurro nojento que de vez em quando vem à tona em minha cabeça perguntou no meu ouvido: está gostando desta massagem? E eu ali, imóvel sem saber o que fazer. Não gritei, não corri, não reagi. Desci os degraus perplexa disfarçando para que ninguém notasse a minha angústia. Com um nó na cabeça se eu estava realmente certa que aquilo havia mesmo ocorrido partindo de alguém de tanta confiança. Muitas dúvidas povoaram por anos a minha cabeça até eu entender que aquele homem é um ser desprezível e imundo, que eu não provoquei aquilo, que não era coisa da minha cabeça. Eu tinha 13 anos. Carreguei o peso de que se contasse destruiria a família dele. Carreguei o peso de que se contasse meu pai e meus tios tomariam atitudes violentas. Carreguei o peso de que se contasse poderiam não acreditar em mim. Aos 27 anos toquei no assunto a primeira vez com a minha irmã. Ela chorou quando contei e o que mais doeu foi ouvir: comigo também aconteceu, com a mesma pessoa, diversas vezes. Ela tinha menos de 7 anos. Carreguei a dor e a culpa de não ter contado antes. Carreguei a culpa de que o meu silêncio teria permitido que ele fizesse mais vítimas. Não podia mais viver vendo aquele homem sendo idolatrado pela sociedade, inclusive por meus pais. Com 28 anos tive a coragem e abri o jogo para minha mãe que não teve sangue frio e enviou uma mensagem via aplicativo ao abusador de suas filhas. Ela o encheu de merecidos adjetivos e disse que estava ciente do que havia ocorrido no passado. Ele se fez de cordeiro. Esta mensagem de minha mãe voltou-se contra nós. Ele contou às tias e parentes em comum entre ele e minha mãe que estava sendo caluniado. Fomos ofendidas. Não nos acreditaram. Ele continuou sendo convidado para as festas familiares, nós fomos excluídas. Mas estou aliviada em estar no meu lugar e não no deles. Não me sentiria bem à mesa com um pedófilo, muito menos sendo um pedófilo. Estou aliviada que por mais que as pessoas não me acreditem, acho que elas na dúvida não deixarão outra criança sozinha com ele. Estou rodeada de amor por quem me é fundamental. Meu pai, minha mãe, meus irmãos, minha avó, meus tios, meu namorado, minhas amigas.

Aprendi que tem relações que não valem a pena e tudo bem. Aprendi que é importante observar o comportamento das crianças. Aprendi que devemos conversar com as crianças sobre o corpo delas e as fazer entender que tem “carinhos” que são impróprios. Aprendi que dói falar, mas cura e evita que outros sintam a mesma dor. Não quero vingança e nem desejo sofrimento. O meu desejo é que as crianças não tenham sua infância marcada por um abuso, mas que enquanto os abusadores estão escondidos por aí que nos mantenhamos vigilantes e que não nos falte coragem pra falar, lutar e proteger. Não nos calaremos!

 

Essa é uma matéria editada por Beatriz Rosa Chiodeli, do São Joaquim Online, em uma parceria com o CREAS, Dra. Dayana Kisner Grings (Advogada), Karine Rodrigues (Acadêmica de Investigação e Perícia Criminal), Dra. Regiane Viana da Silva (advogada), Elisângela da Rosa (pesquisadora) e Sallime Chehade (Pedagoga, Jornalista, Graduanda em Direito e Pós-graduanda em Psicologia Infantil, coordena o Movimento Social Diga não à Pedofilia há 7 anos, clique aqui e conheça a FanPage).

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