A pipa azul – Por Henrique Córdova

Por ser da mesma cor, o firmamento não registrou a perversa história escrita pela grande e bela pipa azul:
No solo, ao fundo de um beco, defendida pela lealdade do amigo incondicional, moldado num bairro de Cabul,
Exibia com o mistério de sua indiferente exuberância, o losango de potencial troféu preservado da sólida neve,
Esquecida da debicagem anterior, quando a rabiola de fitas vermelhas trançadas vertia gotas de sangue no solo breve.

O menino assaltado defendeu-a para aquele a quem amava sem reservas, com a reverência dos inferiorizados,
Sofreu num instante, dos inimigos impiedosos, a violação de sua masculinidade em impudicos atos ritmados,
Não cedeu, apesar da dor e da humilhação, à covardia o que com a coragem conquistou para o desconhecido irmão.
Este, assistente inerte da cena imunda, desfrutou dos aplausos ao troféu elevado pela covarde e parva mão.

A partir daquele dia, o eclipse do sol da puberdade invadida, lançou, para sempre, a sombra da culpa em seu coração,
A culpa revestia a trágica herança de seu pai, que jamais revelou o ato gerador da coragem intocada pelo verme da traição.
Assim, da virtude e da verdade nasceu a covardia para semear, no vasto vergel do amor, os cardos da inveja e da perfídia,
Enquanto do pecado, tardiamente exposto, brotou o fruto da coragem, da lealdade e da gratidão, sempre distantes da desídia.

No prolongamento da descendência, a coroa de ouro e diamantes, destinada aos heróis, caiu sobre os despojos do extermínio
E foi recolhida para ornar a fronte dos que não socorreram a honra enxovalhada e a abandonaram às tentativas de eterno domínio.
A suprema ironia desenhou-se, com as cores da falsidade e da culpa, nos painéis do futuro, quando o mal, impedido de nascer,
Viu o bom surgir das riquezas entesouradas nas cavernas tenebrosas do sofrimento, para redimir e ver o puro amor florescer.

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