O discurso de um pigmeu – Por Henrique Córdova

A agressiva ambição política de um homem, com características peculiares de personalidade e no exercício de importantes funções públicas, pode gerar uma crise institucional no Brasil, cujo desfecho levar-nos-á ao sacrifício do regime democrático e ao retorno das sórdidas práticas administrativas, com os saques ao Erário, ou a um conflito social de proporções e consequências catastróficas.

O comportamento do Governador de São Paulo, em plena e grave crise sanitária que avassala o País, somado ao ativismo político de alguns Ministros do Supremo Tribunal Federal e às investidas parlamentaristas do Congresso Nacional, que invadem as atribuições do Poder Executivo da Nação e, com o apoio de uma mídia apartada dos recursos públicos e da oposição política, prenunciam claramente um golpe de Estado.

Querem defenestrar Jair Bolsonaro da Presidência da República, sem a menor consideração pela vontade majoritária do povo brasileiro. Para isso, recorrem a qualquer meio e a qualquer pretexto, por mais torpes e ridículos que sejam.

Apegam-se a palavras eventualmente inadequadas do Presidente, distorcem a realidade e mentem descaradamente. Tão descaradamente, que o povo repudia o que dizem, desconsidera seus gestos e despreza as suas ações, que, quando certas e úteis, não inspiram adesões e, ainda menos, reconhecimento. Vejam o último discurso do Governador de São Paulo, que foi integralmente transmitido pela Globo News, não se sabe se às expensas do Erário paulista ou de quem.

Foi um discurso que pretendeu ser de Estadista e não passou da leitura de uma peça piegas ensaiada e representada por um janota de salão. Foi um discurso chinfrim, ressentido, extemporâneo, desagregador, deslocado e revelador. Chinfrim, porque sem qualquer conteúdo circunstancial novo e sem capacidade de “ comover para mover” (Vieira, Sermões), portanto inútil; ressentido, porque significou uma resposta tardia, covarde e despropositada à descompostura que lhe infligiu Bolsonaro, quando contestou a sua tentativa de, em nome de governadores, repreende-lo em reunião destinada a tratar da pandemia; extemporâneo, porque o ataque ao Presidente, se cabível, deveria ter sido feito em sua presença, com a oportunidade para réplica: o discurso, se admissível, poderia caber no momento do dissidio criado com Bolsonaro pelo governador Dória e não agora, para reativar uma crise já superada; desagregador, porque tenta confrontar Ministros de Estado (Mandetta, Paulo Guedes e Sérgio Moro) com o Presidente, que os escolheu e nomeou…

Tenta contrapor ao Presidente o seu Vice, General Mourão; deslocado, porque transmitido do Palácio do Governo de São Paulo ao público de uma rede de TV francamente hostil ao Presidente que lhe nega o acesso indevido ao suor dos brasileiros, quando preserva o Erário da rapinagem publicitária; revelador, porque desnuda a personalidade doentia de um cidadão que, fantasiado de manequim de fábrica de roupas, não hesita, ao pôr em risco a estabilidade institucional do País, em obediência à ambição, que nutre, de vir a ser o que Bolsonaro é.

Com toda a cobertura de uma mídia ressentida, o discurso de Dória não provocou qualquer comoção na sociedade brasileira. Ao contrário, desnudou-o e o que o povo viu o enojou. Todos já distinguem o falso do verdadeiro por mais e melhor que se queira transformar o falso em verdadeiro e o verdadeiro em falso.

As mistificações e os estratagemas políticos perderam as potencialidades enganosas que encantaram, por muito tempo, um povo distante dos fatos. Agora, com a atividade incessante e intensa nas redes sociais, às quais o acesso e uso são democráticos, dificilmente a mentira dura mais que o tempo de sua produção. A hipocrisia, “ homenagem que o vício rende à virtude”, é desmascarada instantaneamente e execrada. Talvez seja por isso que, com sua franqueza e honradez, Bolsonaro resista e mantenha 59% dos brasileiros confiantes em sua capacidade de comandar o País durante a nefasta vigência da pandemia, segundo pesquisa do Datafolha.

O triste, mas visível e inevitável, é que alguns políticos oportunistas e inescrupulosos usem o mar da desgraça nacional para navegar exibindo suas ambições como pendões de esperança. Ingenuidade deles e causa de repúdio popular. E tudo, porque Bolsonaro mantém o Erário distante das mãos rapaces… E da inoportuna pressa com que “políticos”, como Dória e Witzel, produtos de uma eleição atípica e de uma ligação oportunista ao nome de Bolsonaro, logo rompida após o pleito, já iniciaram a caminhada na via que leva ao Planalto…

Que os dois governadores citados pretendam, como já demonstraram pretender, eleger-se à Presidência da República não é ambição descabida. Ao contrário, é legítima, desde que exercida com ética e apropriadamente. No momento, a exigência inarredável da sociedade é a do exercício unânime e coerente – horizontal e verticalmente – do poder público na luta contra a pandemia, que jamais poderá servir de palco para exibições de falsas virtudes com objetivos momentaneamente indisponíveis, como é o caso da Presidência da República.

Assim, caso alguém, como Mandetta, revelar-se, por sua capacidade e eficiência, digno de pretender voar do ministério para a presidência da República, esse alguém continue fazendo bem o trabalho que o revelou e não o transforme em aríete para arrombar portas, sob pena de encontrar do outro lado delas o repúdio popular. Ullysses Guimarães costumava repetir, sempre que julgava necessário, a afirmação bíblica: “Cada hora com a sua aflição”. Agora a aflição se chama “coronavírus”, como todos sabem à saciedade..

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.