O vírus atingiu o poder e açaimou vaidades – Por Henrique Córdova

Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante entrevista coletiva sobre coronavírus 18/03/2020 REUTERS/Adriano Machado

Nunca imaginei mudar de opinião tão rapidamente quanto mudei a respeito do ex-Ministro da Saúde – Luiz Henrique Mandetta. Embora ele tenha sido Deputado Federal, eu não o conhecia e nem sabia de sua existência.

Vi-o, pela primeira vez, em entrevista transmitida pela Globo News, quando ele, com muito desembaraço e razoável capacidade de expressão, ensinou-me, e certamente a muitos patrícios, a adotar medidas pessoais necessárias à possível conjuração da ameaça do “novo corona-vírus” à nossa preciosa saúde.

A impressão que me causou foi tão positiva e eficiente que deste então lavo tantas vezes as mãos por dia que receio ter transformado uma necessidade sanitária em um hábito exacerbado pelo medo, além de proteger o nariz com o cotovelo ao espirrar, mesmo sem alguém por perto. Por causa de Mandetta que não mais esfrego os olhos ao acordar e faço minhas mãos voltarem a colar-se em minhas pernas quando, obediente a um costume arraigado, tento leva-las ao rosto para verificar se ele ainda está no lugar em que o vi pelo espelho ao amanhecer.

Aprendi, no entanto, muito mais com o ex-Ministro. Aprendi, por exemplo, que assuntos, por mais importantes que sejam, se esgotam e a recorrência demasiada a eles os banaliza e os torna enfadonhos, até desprezíveis.

Aprendi, que esses efeitos também se transferem a quem os produz. Por isso, as entrevistas diárias da competente equipe ministerial, depois que transmitiam dados numéricos de mortos e infectados e nunca sobre o número de curados da doença, muito menos como e com o que a doença era curada, passaram a desinteressar-me.

Enquanto isso, parte importante da mídia começou a martelar na divergência do ex-Ministro com o Presidente quanto ao isolamento social, ou distanciamento social, recomendado pela OMS e adotado pelo Brasil. Enquanto Mandetta defendia o isolamento horizontal, ou para todos, o Presidente preferia um isolamento menos abrangente, que alcançasse os grupos tidos como de alto risco, sem restringir os cuidados pessoais indicados para todos.

As visões, poder-se-á dizer, seriam as de um médico, que se fixa na doença e no doente e as de um Estadista, que, sem deixar de ter a visão do médico e da ciência, deve ter a da totalidade dos elementos que compõem a vida na e da sociedade. Mesmo em uma pandemia, nenhuma sociedade pode manter-se viva sem as ações indispensáveis ao provimento de suas necessidades fundamentais. Alguém, por maior risco que corra, deve agir para a manutenção dos serviços básicos reclamados pelas vidas individual e social, eis que a inteligência artificial ainda não produziu robôs, em quantidade e qualidade, capazes de substituir, em tudo, os hominídeos.

A partir da descoberta da divergência entre o ex-Ministro nomeado e o Presidente que o nomeou, a mesma mídia posta à distância do Erário não parou de fustigar o Presidente e de endeusar o ex-Ministro, que, ingenuamente e a exemplo de outros políticos importantes, caiu no jogo sujo da vingança a qualquer preço. Infelizmente, o ex-Ministro se deixou seduzir pelas câmeras e pelo palavrório de vassalos de certa mídia desmoralizada, que perdeu o senso da realidade e o temor ao ridículo.

Em nome de convicções científicas alegadas, o ex-Ministro, ao invés de pedir demissão, como devia, numa atitude insólita resolveu permanecer no cargo e peitar o Presidente que o nomeou. Mesmo em face dessas divergências e atitudes, segundo informou o Vice-Presidente Mourão, interferências ministeriais reduziram as tensões entre o Presidente e o ex-Ministro.

Este, porém, em entrevista dada em programa de televisão no Domingo, “ultrapassou o limite da bola” e perdeu a sustentação dos colegas palacianos próximos ao Presidente e que o defendiam. Mais uma vez, o jovem ex-Ministro não resistiu à sedução das câmeras então turbinadas por pesquisas de opinião pública, realizadas por quem? Pelo Datafolha… Assim, Mandetta não deixou alternativa ao Presidente, senão a de demiti-lo. Foi o que aconteceu.

Enquanto o Presidente, visivelmente abatido, anunciava a demissão do ex-Ministro, este, sem máscara e sorridente, em contrafação ao que pregava, abraçava funcionários do Ministério ao deixar a sede do mesmo… Com estes atos, demonstrou faltar-lhe a auto proclamada submissão à ciência e o foco na doença, além de exibir o inaceitável desconhecimento do que significa desempenhar uma função de confiança. Desde quando um Ministro de Estado pode agir segundo o que diz que pensa e divergir de quem serve e o escolhe para executar o que determina? Isto é, quando alguém pode permanecer em um cargo público, para o qual foi escolhido e contrariar as determinações de quem tem autoridade para faze-las e o escolheu para executa-las?

Aqui, não se trata de afirmar que Bolsonaro está certo e Mandetta errado, ou o contrário. O que se afirma é que quem formula a política, no caso, é o Presidente e quem a executa é o Ministro. Se este discorda da política traçada pelo Presidente, tem o dever moral de pedir demissão e jamais permanecer no cargo à espera de ser demitido. De outro modo, se Bolsonaro não demitisse Mandetta, este teria demitido Bolsonaro…

Para a felicidade da mídia intriguista que perdeu tempo ao assinalar que Bolsonaro levou a mão no nariz durante a posse do substituto do ex-Ministro, no momento em que todos, inclusive o demitido, estavam sem máscara e não mantinham o distanciamento regulamentar entre si… E assim, Mandetta que com a pandemia despontou como um líder promissor e como tal foi bem recebido pela maioria do povo, vai ser enterrado pela própria mídia que o endeusou como um indigente, através do esquecimento… Uma vergonha e uma pena.

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