Dulcinéia – Por Henrique Córdova

Etérea e formosíssima senhora,
Do cavaleiro andante soberana,
Em Toboso sempre se demora;
Impávida e casta, não o engana.

De aventuras, o troféu merecedora,
Das vigílias penosas, o pensamento.
Nem a sutil e breve alma vencedora,
A levou ao tão almejado casamento.

Às suas cândidas mãos jamais chegou
A missiva esquecida por Sancho, o portador;
Só à rústica Aldonça Lourenço alcançou
A mensagem parcial do apaixonado sofredor.

Eterna, bela, virtuosa, fiel e intocada,
Amada sem saber, protegida e guardada,
Sublime, platonicamente sempre desejada,
Vive só na memória da cavalaria armada.

De imaginados balcões reais de Toboso,
Lança olhar alongado, coração arfante,
Em busca do bravo e delgado Rocinante,
Montaria do ginete esquálido e famoso.

Quando brilham elmo e espada,
Em peleja no campo antecipada,
Refulge a imagem da impar dama,
Que continua a esperar quem ama.

Assim, por encantos e desencantos,
De Sancho a esperteza e do Quixote o delírio,
De burricas e lavradeiras em prantos,
Da Mancha, o sem-par idílio, fizeram martírio.

Desfalecido o herói da última batalha,
Ajoelhado e lacrimoso, Sancho, em oração,
Vê a encantada Dulcinéia na mortalha
Descer, do seu amado senhor, ao coração.

Por Henrique Córdova

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