Se estivesse vivo hoje, Monsenhor Padre Blévio Oselame celebraria 100 anos de vida — um marco que vai muito além de uma simples data no calendário. É a celebração de um dos maiores nomes da história religiosa, social e cultural da Serra Catarinense, cuja obra permanece viva no tecido diário desta comunidade.
Nascido em 11 de fevereiro de 1926, no distrito de Cocal do Sul, então pertencente a Urussanga, Blévio foi o mais velho de oito filhos e desde muito jovem demonstrou vocação para a vida sacerdotal. Aos 15 anos ingressou no Seminário Diocesano de Caxias do Sul e, mais tarde, aprofundou seus estudos em Filosofia e Teologia no Seminário Central dos Padres Jesuítas. Aos 24 anos foi ordenado sacerdote na Catedral de Lages pelo então Bispo Dom Daniel Hostin.
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Mas a história de Padre Blévio não se resume a datas e títulos. Ao chegar em São Joaquim, em 1957, encontrou não apenas um povo carente de fé, mas uma cidade sedenta por direção, educação e esperança — e ele se tornou a resposta para essa necessidade.
Um visionário à frente do seu tempo

Padre Blévio não se limitou ao púlpito. Ele entendeu que a fé caminhava lado a lado com o desenvolvimento social e educacional. Assim, desempenhou papel fundamental na criação e consolidação de instituições que moldariam o futuro da cidade:
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Incentivou a construção da Escola Técnica de Comércio, onde também lecionou como professor voluntário.
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Concluiu as obras da Igreja Matriz, o cartão-postal da fé católica local, ao mesmo tempo em que erguia a moderna Casa Paroquial — considerada, em 1959, uma das edificações mais significativas da cidade.
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Foi um dos sócios-fundadores da Rádio Difusora São Joaquim Ltda., onde apresentou por décadas o programa “A Voz do Vigário”, levando palavras de fé e reflexão a lares de toda a região.
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Construiu escolas, residências para religiosas e espaços voltados à formação religiosa e social.
Sua atuação também ultrapassou os limites da paróquia: foi nomeado inspetor escolar por quatro anos pelo governador da época, abrangendo distritos que ainda não haviam se emancipado. Essa visão fez dele não apenas um padre, mas um verdadeiro artífice do desenvolvimento comunitário.
O coração do povo serrano

Padre Blévio tinha um dom raro: a capacidade de aproximar, acolher e inspirar as pessoas. Nos momentos mais importantes da vida dos joaquinenses em batizados, casamentos, despedidas, ele estava ali, não apenas como sacerdote, mas como amigo, conselheiro e presença confiável.
Suas missas inesquecíveis, especialmente as realizadas em datas e tradições marcantes como a Missa Crioula na Festa Nacional da Maçã, tornaram-se parte da memória afetiva da cidade, unindo fé e cultura de forma única.
Ao lado de figuras como Monsenhor Padre Otávio de Lorenzi, Padre Blévio se transformou em símbolo de uma geração que viveu intensamente sua missão: caminhar com o povo, celebrar com alegria e construir com mãos e coração.

Um século que jamais chegará ao esquecimento
Padre Blévio faleceu em 5 de fevereiro de 2018, aos 91 anos, deixando um legado que poucos conseguem igualar — de fé, educação, compromisso social e amor ao próximo.
Se estivesse vivo hoje, celebraria seus 100 anos não apenas como um padre, mas como um dos maiores nomes da história de São Joaquim — um exemplo de dedicação que segue inspirando gerações. O tempo passou, mas sua obra, suas palavras e sua memória permanecem vivas nos corações de quem o conheceu e de quem ouviu falar dele.
Porque alguns homens não pertencem apenas ao seu tempo.
Pertencem à memória.
Veja as imagens
(Arcervos Padre Blévio Oselame, Museu Histórico e São Joaquim Online)

Sua ordenação Sacerdotal na Catedral de Lages em 01/12/1954



Sua primeira missa com sacerdote em 12/12/1954 no município de Rio Rufino


Um marco para a História: o Colégio São José

Ao lado de seu companheiro Padre Otávio Di Lorenzi, Padre Blévio arrastava multidões durante as procissões em São Joaquim


Uma história toda que o tempo não vai apagar…



A última foto…

Registrada pelo fotojornalista Mycchel Legnaghi, da Agência São Joaquim Online, para a capa do Diário Catarinense de 2017 em uma reportagem especial sobre os 50 anos da histórica neve de 1957, esta imagem se transformou em um documento eterno. Nela, Padre Blévio segura com orgulho o retrato do dia em que chegou à cidade sob metros de neve, sem imaginar que aquele também seria seu último registro, esse foi um encontro definitivo entre o homem, a memória e a própria história de São Joaquim.






