O governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, prepara-se para um movimento geopolítico que pode redefinir as relações de segurança e soberania na América Latina. Nos próximos dias, Washington deve anunciar a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês). A medida, que já foi aplicada a cartéis mexicanos e venezuelanos, acende um alerta vermelho em Brasília: o temor de que o combate ao narcotráfico seja utilizado como justificativa para operações militares unilaterais em território brasileiro.
A ofensiva americana não é um fato isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla batizada de “Shield of the Americas” (Escudo das Américas). Em um encontro recente em Miami, Trump incentivou líderes latino-americanos a utilizarem força militar letal contra cartéis e gangues transnacionais, comparando-os a grupos comoAl Qaedae Estado Islâmico . A ausência de delegações do Brasil, México e Colômbia no evento evidencia o desconforto regional com a escalada militarista proposta por Washington.

O Narcoterrorismo e a Soberania em Jogo
Para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a classificação de facções criminosas como organizações terroristas é uma distorção jurídica com graves implicações políticas. Segundo a legislação brasileira (Lei nº 13.260/2016), o terrorismo é caracterizado por atos motivados por extremismo político, religioso, racial ou ideológico. O PCC e o CV, por outro lado, são organizações voltadas exclusivamente para o lucro ilícito, sem motivações ideológicas que justifiquem o enquadramento.

A insistência de Washington em adotar o rótulo de narcoterrorismo é vista por especialistas como uma ferramenta para expandir a jurisdição americana. “Quando uma organização é enquadrada como terrorista, o repertório de ação internacional muda completamente. Abrem-se portas para sanções financeiras, cooperação militar ampliada, extraterritorialidade jurídica e operações de inteligência internacional”, aponta análise do governamental.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou recentemente com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em uma tentativa de barrar a iniciativa.
A diplomacia brasileira teme que a medida sirva de pretexto para a aplicação de uma “Nova Doutrina Monroe”, na qual os Estados Unidos reassumem o papel de tutores da segurança hemisférica, intervindo diretamente em países que considerem incapazes de conter ameaças transnacionais.
O Precedente Venezuelano e Equatoriano
Os temores brasileiros não são infundados. A história recente demonstra que a classificação de grupos criminosos como terroristas é frequentemente o prelúdio para ações militares. Em novembro de 2025, o governo Trump designou o Cartel de los Soles, da Venezuela, como organização terrorista. Meses depois, em janeiro de 2026, forças americanas realizaram uma operação militar de grande escala que resultou na captura do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, sob acusações de narcoterrorismo .

Mais recentemente, no início de março de 2026, os Estados Unidos e o Equador lançaram operações militares conjuntas contra organizações classificadas como terroristas ligadas ao narcotráfico.
Essas ações, endossadas pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), ilustram a disposição de Washington em utilizar poderio militar para combater o crime organizado na região, muitas vezes à revelia das soberanias nacionais.
O Que Muda com a Classificação?
A inclusão do PCC e do CV na lista de FTOs traria consequências imediatas e profundas, tanto no âmbito legal quanto econômico. A tabela abaixo resume os principais impactos da medida:
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Impacto
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Descrição
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Sanções Financeiras
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Bloqueio de ativos financeiros ligados aos grupos e proibição de transações no sistema financeiro dos EUA.
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Apoio Material
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Torna-se crime federal nos EUA fornecer qualquer tipo de “apoio material” (dinheiro, armas, treinamento) às facções.
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Restrições de Imigração
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Membros ou associados das facções podem ter vistos negados ou ser deportados sumariamente dos EUA.
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Risco para Empresas
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Empresas que operam em áreas dominadas pelas facções podem ser alvo de sanções do Tesouro americano (OFAC).
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Ação Militar
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Autoriza o Pentágono a utilizar inteligência e capacidades militares para atacar os grupos, inclusive de forma unilateral.
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O Futuro das Relações Bilaterais
A possível designação do PCC e do CV como organizações terroristas coloca o Brasil em uma encruzilhada diplomática. A questão deve ser um dos temas centrais de uma eventual reunião entre Lula e Trump na Casa Branca, ainda sem data definida. O desafio do governo brasileiro será defender sua soberania e sua abordagem de segurança pública sem provocar um rompimento com seu segundo maior parceiro comercial.
Enquanto Washington avança com sua agenda de militarização do combate às drogas, o Brasil e outros países latino-americanos resistem à imposição de uma doutrina que ameaça transformar o continente em um novo teatro de operações militares americanas. A linha tênue entre cooperação internacional e intervenção unilateral nunca esteve tão frágil.




