Ex-prefeito por dois mandatos, dentista e autor de “Memórias de um Joaquinense”, ele deixou uma contribuição que atravessa a vida pública e a preservação das lembranças da cidade.
Se estivesse vivo, Joaquim Anacleto Rodrigues Neto completaria 87 anos nesta segunda-feira, 19 de outubro de 2026. Nascido em São Joaquim em 1939, construiu uma trajetória ligada ao município no consultório odontológico, na prefeitura, na produção de maçãs e na escrita. Faleceu em 24 de março de 2019, aos 79 anos, deixando também nas páginas de suas crônicas uma forma de permanecer entre os joaquinenses.
Nesta data, sua lembrança ganha um significado especial pelo trabalho de registrar a cidade e seus personagens. Autor de “Memórias de um Joaquinense”, Joaquim Anacleto reuniu histórias e experiências que ajudam outras gerações a conhecer o passado local. A importância dessa contribuição foi reconhecida no lançamento da obra na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, em abril de 2011.
A cidade preservada pela escrita
Na apresentação do lançamento, a Alesc o descreveu como cronista dos hábitos e costumes da Serra Catarinense. O prefácio do livro foi assinado pelo ex-governador Henrique Hélion Velho de Córdova, seu amigo de infância, que destacou a fidelidade às fontes e o trabalho de pesquisa presente nas narrativas.
Ao comentar a escrita do amigo, Córdova ressaltou que os relatos permitiam reencontrar o passado de São Joaquim e de seus moradores. Em uma passagem, referiu-se àquilo “que a memória dos privilegiados encontra, guarda e generosamente partilha”, conforme o registro da Assembleia Legislativa sobre o lançamento.
Essa disposição para compartilhar lembranças também chegou à escola. Em setembro de 2011, a Escola de Educação Básica Municipal Jurema Hugen Palma anunciou sua participação em uma mesa-redonda sobre cultura e povoamento da região serrana. Antes do encontro, as crônicas de seu livro haviam sido trabalhadas com alunos dos anos finais do Ensino Fundamental. A iniciativa buscava aproximar os estudantes da história e do patrimônio cultural de São Joaquim.
“Não deixar a história de São Joaquim se perder no tempo”
Nas 246 páginas de “Memórias de um Joaquinense”, o autor reuniu a história do município, o resgate histórico da maçã e crônicas publicadas nos jornais Mural e Travessia. A proposta era transformar documentos e lembranças em um registro que pudesse atravessar gerações.

Ao apresentar a obra, Joaquim Anacleto explicou o propósito que orientou a pesquisa: “Meu maior objetivo com este livro é não deixar a história de São Joaquim se perder no tempo.”
Segundo o autor, o trabalho foi fundamentado em documentos históricos obtidos na Prefeitura Municipal, na Câmara de Vereadores e no acervo de Teófilo Matos, além de obras de Enedino Ribeiro, Padre Ernesto Schutz e Maria Batista Lercolini.
Entre os episódios abordados, ele destacou a vinda da filha de Anita Garibaldi, a exposição da maçã em 1906 e a primeira reunião da Câmara de Vereadores. Ao reunir esses acontecimentos e as questões vividas pela comunidade, o livro ofereceu aos joaquinenses a possibilidade de reconhecer, nas páginas, partes da própria história.
Um pesquisador das raízes joaquinenses
Há registros de sua produção histórica anteriores ao livro. O blog Genealogia Serrana de Santa Catarina, dedicado a pesquisas sobre famílias da região, menciona um artigo de Joaquim Anacleto sobre os primórdios de São Joaquim, publicado na edição de julho de 2006 do jornal Travessia. O texto foi tomado como ponto de partida para novas considerações sobre a formação do município.
Sua atuação como cronista também esteve ligada ao SerraSC.com.br, versão online do jornal Mural, onde escrevia com foco na história joaquinense, conforme os registros biográficos publicados sobre ele.
O interesse por suas narrativas alcançou ainda a pesquisa acadêmica. Em artigo publicado na revista Iluminuras, em 2011, o pesquisador Felipe José Comunello dedicou uma seção a Joaquim Anacleto e à relação dos joaquinenses com a neve. No relato do encontro com o escritor, registrou que ele trabalhava na tradução de um texto sobre a história familiar, destinado a uma viagem do irmão à Itália. O episódio revela o cuidado em manter os vínculos entre memória, família e lugar.

Do consultório à prefeitura
Filho do professor José Jaime Vieira Rodrigues e de Filomena Martorano Vieira Rodrigues, Joaquim Anacleto iniciou os estudos no Grupo Escolar Professor Manoel Cruz. Cursou o secundário no Colégio Catarinense, em Florianópolis, e formou-se em Odontologia pela Universidade do Paraná, na turma de 1960 a 1963. Começou a atender em janeiro de 1964 e aposentou-se em 2009.
Na política, foi prefeito de São Joaquim em dois períodos: 1970 a 1973 e 1993 a 1996. Também se dedicou à pomicultura e ao turismo, por meio do estabelecimento Castelluccio, e viveu no Sítio Ritinha. Essas atividades compõem a trajetória de alguém que participou de diferentes dimensões da vida do município.
Uma homenagem que permanece no cotidiano
O reconhecimento à sua trajetória também ganhou um endereço na cidade. Em 16 de dezembro de 2024, foi inaugurada a nova Unidade Básica de Saúde do bairro Santa Cruz, que recebeu o nome de Dr. Joaquim Anacleto Rodrigues Neto. A homenagem foi instituída pela Lei Municipal nº 5.069/2023, de autoria do Executivo Municipal.

A solenidade reuniu autoridades e familiares do homenageado. O neto Eduardo Rodrigues Martorano discursou em agradecimento à iniciativa e destacou o orgulho da família pelo reconhecimento. A nova estrutura representou, assim, uma melhoria no atendimento à comunidade e uma forma de preservar no cotidiano a lembrança do ex-prefeito e dentista.
Conforme o registro da inauguração, a obra foi realizada na gestão 2021–2024, com investimento de R$ 816 mil e recursos provenientes do deputado federal Fábio Schiochet.

A homenagem aproxima duas dimensões de sua vida: o cuidado com as pessoas, exercido na Odontologia, e a atuação pública em São Joaquim. Seu nome permanece identificado em um serviço destinado à população do município ao qual dedicou sua trajetória.
A lembrança do avô pelas ruas de São Joaquim
A memória de Joaquim Anacleto também esteve presente no desfile alusivo ao 7 de Setembro de 2026, pelas ruas de São Joaquim. Em homenagem ao avô, seu neto, Eduardo Rodrigues Martorano, levou um quadro com o retrato do ex-prefeito e escritor, mantendo sua lembrança entre os participantes da celebração cívica.

O gesto reuniu a saudade da família e a história do município: o rosto de quem dedicou parte da vida a registrar São Joaquim voltou a percorrer suas ruas, levado pelas mãos de uma nova geração.
No dia em que completaria 87 anos, recordar Joaquim Anacleto é também voltar a atenção ao patrimônio que ele ajudou a preservar: as histórias de uma cidade, seus costumes e as pessoas que lhe deram identidade.
Ao escrever sobre São Joaquim, Joaquim Anacleto deixou às novas gerações a oportunidade de conhecer uma cidade que o tempo transformou, mas que suas páginas ajudam a manter viva.