Uma disputa entre pais e filhos jogou a Marabraz na Justiça. A rede de móveis, tradicional entre consumidores de renda popular, pediu recuperação judicial após acumular R$ 140 milhões em dívidas.
Diferente de outras varejistas em crise, porém, o problema da Marabraz não nasceu apenas da economia. Assim, a origem está numa briga de família que rompeu décadas de estrutura financeira.
Como a briga de família derrubou a Marabraz
A empresa nasceu em 1965, fundada pelo imigrante libanês Abdul Hamid Mohamad Fares. Depois de sua morte, em 1978, os filhos assumiram o negócio e, em 1986, compraram a marca Lojas Marabraz.
A rede cresceu nas décadas seguintes. Chegou a ter 135 lojas e construiu sua imagem com campanhas estreladas por Zezé Di Camargo & Luciano.
Nesse período, parte do lucro da empresa foi direcionada para imóveis. Esses imóveis, porém, tinham uma função estratégica: serviam de garantia para empréstimos bancários que sustentavam a operação.
O sistema funcionou por décadas. Até a família se dividir.
Em 2024, dois irmãos da segunda geração foram à Justiça contra filhos e sobrinhos, buscando reaver partes de uma holding patrimonial. Ganharam em primeira instância, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo reverteu a decisão em setembro. Assim, os controladores da Marabraz perderam o direito de usar os imóveis como garantia bancária.

Sem garantias, o crédito ficou mais caro
A perda dos imóveis como garantia atingiu direto o caixa da empresa. Segundo a companhia, bancos passaram a exigir novas garantias, reduziram limites e aumentaram o custo dos empréstimos.
Para uma varejista, esse tipo de aperto é rápido de sentir. Afinal, é preciso colocar dinheiro em estoque antes mesmo de vender o produto. Além disso, despesas com aluguel, logística e fornecedores não esperam.
A empresa descreve, na petição, um ciclo de deterioração: menos crédito gerou menor liquidez, a falta de liquidez aumentou o risco percebido pelos bancos, e o risco maior dificultou ainda mais o acesso a dinheiro.
Crise que também atinge outras varejistas
A Marabraz não está sozinha. Na recuperação judicial, a empresa cita juros altos, queda no consumo e avanço do comércio digital como fatores externos que pressionaram o setor.
Esses mesmos desafios levaram a Casas Bahia a pedir recuperação judicial com uma dívida de R$ 17,3 bilhões, na mesma semana. A diferença, porém, é que a Marabraz sustenta que sua crise é essencialmente financeira, não operacional — a marca ainda tem apelo e as lojas seguem vendendo normalmente, segundo a companhia.
O pedido de recuperação judicial foi protocolado na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Cinco empresas ligadas à Marabraz apresentaram o pedido em conjunto, já que uma delas enfrentava, paralelamente, um processo de falência.
Agora, a Marabraz precisa provar que consegue manter as lojas funcionando sem depender da mesma engrenagem financeira que ajudou a construir sua expansão ao longo de seis décadas.





