Doença priônica rara e fatal provoca deterioração neurológica acelerada; maioria dos pacientes morre meses após o início dos sintomas
A Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença priônica rara, neurodegenerativa e progressiva. Ela faz parte do grupo das Encefalopatias Espongiformes Transmissíveis (EET) e ocorre quando proteínas chamadas príons assumem uma conformação anormal e se acumulam no cérebro, provocando danos progressivos ao tecido nervoso.
Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 90% das pessoas acometidas pela DCJ evoluem para óbito em até um ano após o início dos sintomas. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, estima que a morte ocorra, em geral, quatro a cinco meses depois do início das manifestações clínicas.
No entanto, apesar da evolução geralmente rápida, a velocidade de progressão da doença pode variar de acordo com a forma da DCJ, características moleculares, idade de início e manifestações predominantes.
O Ministério da Saúde descreve, entre os sinais iniciais, perda de memória, tremores, falta de coordenação motora, ataxia, afasia, alterações visuais, mioclonias e mudanças de comportamento. Também podem ocorrer dor de cabeça, fadiga, distúrbios do sono, perda de apetite e alterações da linguagem.
O CDC também aponta a demência como uma das principais manifestações, acompanhada por sinais neurológicos como dificuldade para caminhar, movimentos involuntários e alterações visuais. A doença costuma atingir principalmente pessoas mais velhas, com média de idade próxima aos 60 e poucos anos.
O que acontece com a progressão
À medida que a doença avança, o comprometimento neurológico se torna mais intenso e generalizado. A perda de funções cognitivas passa a ser acompanhada por alterações motoras e de coordenação, dificuldade de comunicação e outros sinais neurológicos.
O Ministério da Saúde destaca que a deterioração das habilidades psicomotoras na DCJ é muito mais acelerada do que em outras formas de demência. Nos estágios seguintes, podem surgir insônia, depressão, crises epilépticas e paralisia facial, além do agravamento dos sintomas já existentes.
Por que alguns casos avançam mais rapidamente
Embora a DCJ seja conhecida pela evolução acelerada, o tempo entre o início dos sintomas e a morte não é igual para todos os pacientes.
Um dos estudos mais importantes sobre o tema foi publicado em 2004 na revista científica Brain. A pesquisa analisou 2.304 casos de DCJ esporádica registrados em dez países europeus e avaliou fatores associados à sobrevida. O trabalho mostrou diferenças importantes na duração da doença conforme características dos pacientes e dos diferentes tipos de doença priônica.
Estudos posteriores também demonstraram que os subtipos moleculares da DCJ esporádica apresentam diferentes manifestações clínicas e prognósticos. Os subtipos MM1 e MV1, por exemplo, tendem a apresentar declínio cognitivo mais rápido. Já VV2 e MV2K geralmente começam com manifestações cerebelares e podem apresentar evolução mais prolongada.
A idade também parece influenciar a sobrevida. Na análise publicada na Brain, pacientes mais jovens apresentaram maior tempo de sobrevida, enquanto o aumento da idade no início dos sintomas esteve associado a maior risco de morte.
Quais são as formas da doença
O Ministério da Saúde classifica a DCJ em quatro formas: esporádica, hereditária, iatrogênica e variante.
A forma esporádica representa aproximadamente 85% dos casos confirmados. Ela ocorre sem uma causa conhecida ou um padrão reconhecível de transmissão. A forma hereditária responde por cerca de 5% a 15% dos casos e está relacionada a mutações no gene da proteína priônica.
A forma iatrogênica corresponde a menos de 1% dos casos e pode ocorrer em situações extremamente raras relacionadas à exposição a tecidos ou materiais contaminados. Já a variante da DCJ está associada à exposição ao agente causador da encefalopatia espongiforme bovina
É importante não confundir a DCJ clássica com a chamada “doença da vaca louca”. A forma esporádica, que representa a maioria dos casos, não está relacionada ao consumo de carne.
Por que o diagnóstico pode ser difícil
Outro fator que interfere na identificação da doença é a dificuldade do diagnóstico. Os sintomas iniciais podem ser semelhantes aos de outras doenças neurológicas, enquanto os exames disponíveis apresentam diferentes níveis de sensibilidade dependendo do momento em que são realizados.
O Ministério da Saúde considera o diagnóstico preciso da DCJ “muito desafiador”. Ressonância magnética, eletroencefalograma, tomografia, análise do líquido cefalorraquidiano para a proteína 14-3-3 e testes genéticos podem ajudar na investigação, mas a confirmação definitiva tradicionalmente depende de análise neuropatológica do tecido cerebral.
Um dos avanços nessa área foi o desenvolvimento do RT-QuIC, técnica capaz de identificar a presença de atividade relacionada aos príons no líquido cefalorraquidiano.
