Águas da primavera – Por Henrique Córdova

Destino

As águas do grande rio,
acrescidas de gotas cadentes
continuamente repetidas,
insistentes,
desventradas de nuvens
plúmbeas e prenhes,
Levam breves cogitações,
às vezes aos borbotões,
para onde jamais saberei…

Benzedura

Negro,
cabelos esbranquiçados em densos caracóis,
do outeiro mutilado,
com largos gestos em cruz
traçada pelo velho chapéu de palha esfiapada,
espanta dos ouvidos o trovão
para ser escutada, pelo céu,
a prece murmurada
e. com ela, manter afastados dos olhos
os riscos de fogo
que fulminam a terra.

Tio Miro,
Poderoso mago,
Maneja seguro e sem medo,
a varinha infalível da fé;
manda o granizo aonde fruta não há
ou para onde as há, sem fé.

Ali e lá,
Sempre a pé,
Anda e, persistente, volta a rezar,
a benzer, sem cessar.

Ao prosseguirem os anos,
à véspera de profanos festins,
sua sagrada e misteriosa oração
jamais há de falhar…

…E as macieiras vaidosas
Continuarão exibindo frutos,
como brincos carmins,
à espera dos aleatórios convivas,
que, ávidos, virão e os colherão…

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