Ao Doutor Sigmund Freud Paraíso Cosmos – Henrique Córdova

Doutor,

Sinto-me compelido a escrever-lhe, para fazer uma fofoca, sobre a publicação intitulada “Porque Freud Errou”, de Richard Webster.

Reconheço que me faltam dotes e conhecimentos para compreender a sua genial obra e avaliar a qualidade de qualquer crítica a ela empreendida. Não me privei, contudo, de le-la e de encantar-me com suas construções, no mínimo engenhosas e verossímeis. Dificilmente um ser humano poderá atingir as profundezas da mente de modo mais convincente que o senhor, embora muitos entendam haver um excesso de ênfase ao instinto sexual, em suas formulações. Penso diferente. Não confundo sexualidade com genitalidade e suas variadas formas de gratificação. Mas, minha opinião de leigo sobre as suas concepções, é irrelevante. Ademais, não quero ceder à tentação de buscar notoriedade à sua sombra. Se o fizesse, seria indigno de aproximar-me do senhor.

Anunciei-lhe, no início, uma fofoca. Vamos a ela.

Richard Webster, além de afirmar que o senhor não ultrapassou, em suas teses, a tradição judaico-cristã, realçou negativamente suas experiências com a cocaína, na condição de usuário, pelo menos temporariamente. Deixou à suspeita do leitor uma ligação entre o uso da droga e do fumo com o câncer no maxilar, que o incomodou terrivelmente no final da vida. Sabemos ter, sua simpatia pela cocaína, origem na convicção de que ela teria um grande futuro como anestésico, apesar do arrefecimento de seu entusiasmo por ela ante a morte de um amigo a quem recomendou o seu uso, embora não de forma injetável.

Outra censura dirigiu-se à sua condescendência relativamente às transgressões das regras que estabeleceu. A análise de sua filha, Ana, foi uma delas. Ana, durante toda a sua vida dedicou-se ao senhor e o senhor sempre se preocupou com a sexualidade dela. Verdadeira a sua teoria sobre o “ complexo de Édipo”, teríamos, em Ana, um exemplo de insuperabilidade própria do mesmo.
Quanto à sua amizade com W. Fliess, Webster lança suas suspeitas, por entende-la singular. Suas outras amizades, segundo ele, duraram, enquanto houve, por parte delas, submissão às suas ideias. Jung e Adler foram exemplos marcantes de rupturas ocasionadas por discordâncias de suas formulações.

Fofoca, para um gênio, como o senhor, deve ser desprezível, não obstante necessária para provocar-lhe a indignação e leva-lo à uma resposta arrasadora, como costumavam ser as suas, quando, em vida, debatia com os contestadores de suas afirmações e hipóteses. As respostas, ainda atuais e com a capacidade mencionada, podem ser encontradas em suas publicações inesgotáveis em conteúdo e belíssimas na forma. Além de cientista, o senhor foi um incomparável escritor. Provoca-lo, agora, é remeter os discordantes aos seus livros. Este é o real objetivo de minha fofoca. Ela não se dirige, propriamente, ao senhor, mas aos que, sem abrange-lo em toda a extensão e profundidade, o criticam, em busca de um lugar na constelação dos predestinados. É claro que o Doutor cometeu erros, como todos os seres humanos, sem exceção, mas raros são os que ultrapassam os limites de nossa pátria intelectual, como o senhor ultrapassou, ao descobrir o inconsciente e sua decisiva influência no comportamento humano, principalmente em suas manifestações neuróticas e psicóticas .

A neurose resulta de um embate entre o id e o ego. Para reduzi-lo, é imperioso encontrar no inconsciente o que, reprimido, causa o desequilíbrio neurótico e traze-lo ao consciente.
Como chegar ao inconsciente?

Foi o senhor que, após experiências terapêuticas através da hipnose, com Breuer, no tratamento da histeria de Ana O., descobriu ser possível alcançar o inconsciente por meio da associação das ideias e dos sonhos.

Os resultados obtidos com seus pacientes, cada vez em maior número, não só comprovaram a veracidade de suas descobertas e a adequação dos seus métodos, como permitiram o florescimento da psiquiatria e da psicanálise, que ganharam espaço universal. Por isso, quando o senhor, depois de transformado, é alvo de críticas, os que o admiramos, por menores e mais ignorantes que sejamos, não podemos calar, sobretudo, porque é das marolas persistentes e consecutivas que se formam os vagalhões, que tudo arrostam e arrastam, assim como de pequenos grãos de areia se formam as dunas que, ao vento, encobrem monumentos na voluptuosidade descontrolada de uma natureza revolta.

Não sei, Doutor, se ainda em vida lhe levaram aos ouvidos a notícia malévola, sussurrada, de que partilhava seu leito conjugal com a cunhada e, quem sabe, até com Paula Fichtel, a governanta do seu lar vienense, com o objetivo de desmoralizar suas teorias, via depreciação de seu caráter, em face de padrões impostos pela sociedade austríaca. Se levaram, o senhor soube deslizar sobre a infâmia e o poder de sua genialidade dissolveu a intriga.

Concluída a fofoca, arriscados alguns juízos, encerro a presente, assegurando-lhe que garantiu a eternidade, entre os efêmeros, com a couraça impenetrável tecida pela mente das mentes.
Se não o incomodar, voltarei a escrever-lhe.
Com eterna reverência e admiração,

 

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