A parcial redenção de Brutos, o pecado de Júlio Cesar e a mancha de Cícero – Por Henrique Córdova

Quando me ensinaram História Geral e comentaram o assassinato de Júlio Cesar em pleno Senado Romano, através do traiçoeiro punhal de Brutus, considerado pela vítima como um filho, fixei na minha memória uma imagem macabra de Brutus e outra comiserada de Júlio Cesar. Só na maturidade, depois de muitas leituras e pesquisas, comecei a mudar o desenho mnemônico de Brutus, o de Júlio Cesar e retoquei o de Cícero, que sempre considerara um jurista brilhante, o maior advogado de seu tempo, orador persuasivo, político austero e patriota.

Para justificar os retoques feitos na fotografia histórica de Cícero, é suficiente citar uma das causas do ódio que nutria por Lúcio Catilina, bem expresso nas famosas “catilinárias”, peças de notáveis qualidades retóricas e acusatórias.

Cícero, desde a adolescência, amava Lívia, prometida a Lúcio Catilina, com quem se casou sem esquivar-se, em nome das tradições e costumes romanos.
Taylor Caldwell, em “Um pilar de ferro”, biografia de Cícero, descreve minuciosamente a paixão de Cícero por Lívia e o ódio por Catilina, belo oficial romano. Caldwell não afirma que o ódio de Cícero por Catilina advinha de ciúmes… Mas… Ao que parece, esse ciúme, nunca se soube em que dose, integrava o ódio do grande orador romano ao General Catilina.

Júlio Cesar recebia, em sua casa, em Roma, todos os homens proeminentes de seu tempo e os liderava. Àquela época, as casas residenciais (vilas) eram visitadas e serviam de ponto de encontro entre políticos, que, ao invés de beber cafezinhos, entremeavam suas conversas com vinho.

Cesar tornou-se imperador e passou a exercer suas funções com rigor e incontrastável autoridade. Transformou-se num ditador, que despertou fortes reações no Senado, onde floresceu uma conspiração para a qual Cícero não foi convocado em razão de, segundo Shakespeare, “jamais acompanhar uma ideia que não partisse dele mesmo”.
É conhecido o resultado da conspiração: César tombou no Senado, ferido pelo punhal de Brutus.

Segundo Shakespeare, na peça “Júlio César”, para justificar seu ato, Brutus pronunciou as seguintes palavras:

  • Se houver alguém, nesta reunião, amigo afetuoso de César, dir-lhe-ei que o amor que Brutus dedicava a César não era menor que o dele. E se esse amigo, então, perguntasse a Brutus porque motivo se levantou contra César, eis a minha resposta: não foi por amar menos a César, mas por amar mais a Roma.

Que teríeis preferido; que César continuasse com vida e vós morrêsseis como escravos, ou que ele morresse para que todos vivêsseis como homens livres? Por me haver amado César, pranteio-o; por ter sido ele feliz, alegro-me; por ter sido valente, honro-o; mas por ter sido ambicioso, matei-o.

Logo, lágrimas para a sua amizade, alegria para a sua fortuna, honra para o seu valor e morte para a sua ambição. Haverá aqui, neste momento, alguém, tão vil que deseje ser escravo? Se houver alguém nestas condições que fale, porque o ofendi. Haverá alguém tão grosseiro para não querer ser Romano? Se houver que fale, porque o ofendi. Haverá alguém tão desprezível, que não ame a sua pátria?

Se houver, fale porque eu o ofendi. Faço uma pausa, para que respondam. Alguém quer responder?

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