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Gorjeios da Primavera

Caboclinho

Na frase feita sarcófago,
Palavras desprovidas de vozes
Jazem mortas.

Então,
Do balanço de galho florido,
Sobre peito negro e capa plúmbea,
Na graciosa e inquieta cabeça,
Entre negras plumas de seda,
Olhos mínimos
Esquadrinham,
Desconfiados,
O universo de novas cores,
Fortes ardores,
Vários sabores,
Inegáveis odores,
Possíveis amores…
Renunciados.

De repente,
No silêncio de mágico entardecer
Ao horizonte dourado,
Tudo se ouve e vê,
Quando se abre o seu negro bico…
E dele escorre lindo o canto único.

Canarinho

Pequenos saltos amarelos,
coroados de ouro velho,
aproximam do alpiste espalhado ,
em meios giros ligeiros,
o tesouro canoro das manhãs imprevistas.

Todas as janelas se abrem,
estremunhadas,
A esperar as cores
e raios do dia indeciso.

Entre o vai do quintal
ao cedro dançarino,
E o vem ao quintal,
onde,
posta está a mesa do banquete permanente,
Quebra o silêncio,
o bater de asas calculistas,
rumo à doce e nova semente.

A canção esperada
continua promessa,
Enquanto se prolonga o desjejum à oriental
e sem pressa.
Outras primaveras virão inteiras
e os ouvidos estarão abertos,
enquanto a memória roda as gravações passadas,
com trinados intervalares,que surpreenderam

Tico-tico

Do vão da porta ,
vislumbra-se ,
quieto ,
no galho nu da cerejeira tardia ,
a crista,
que, serena,
passeia pelos pontos cardeais.

Da coleira avermelhada ,
tombam pelas costas
estrias escuras
que contrastam com o peito pardo.

Aos bandos ,
por todos os sítios ,
piam sem parar .
Piam para fugir
e para aproximar .
Entram em casa para se alimentar
e afrontam o inquilino disposto a amar .

Só cantam,
lindamente,
ao longe e invisíveis,
próximos aos pés de manacá,
mas cantam em todas as estações cabíveis ,
saltitantes,
com ou sem fubá …

A SABIÁ

O marrom e o preto ,
que predominam em suas penas;
a melancolia de seu canto vespertino,
no escaldante janeiro,
ou no promissor amanhecer de fevereiro,
sugerem a reminiscência de lúgubre cativeiro.

Caminha e voa nos limiares do tempo
e se distancia da visão.
Nas gaiolas, prisioneira,
luta até sangrar nos esticados arames .

Vencedora,
por inconformada,
por persistente,
por indomável,
por lutadora,
evoca,
ao amanhecer e ao anoitecer ,
o arame esgarçado,
o espaço conquistado,
e o sangue ,
que pulsa no coração aprisionado
pela paixão
e no libertado
pelo amor.

Ao voar para alhures,
Deixa seu misterioso legado,
Que invade os ouvidos
E planta na alma a saudade.

PATATIVA

Pedacinho de firmamento,
com pintas de nuvens brancas ,
lança,
da cabeça de diversa nuança ,
pinça dourada,
que se abre em melodia límpida,
perfeita ,
invariável .

Surge no calor do verão,
desaparece antes do outono ,
sem dizer para onde vai,
já que não disse donde veio.
É presença imponente e ausência sentida,
mas – numa e noutra – um troféu à vida
.

No sul,
as prisões se armam e se fecham
no calor supremo do sol
e não se abrem nas máximas friagens hibernais.
Assim ,
a natureza inverte-se inexorável ,
sob o protesto do silêncio
eriçado de azul
e manchado de amarelo esmaecido.

PARDAIS

Com pelotaços do Paulinho na bunda,
morreram todos os pardais…
E quem mais ?

 

Por Henrique Córdova

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