“O cobertor de Budiko” – Por Henrique Córdova

Os autores de “Freakonomics”, Steven D. Levitt e Stephen J.Dubner, entre muitas demonstrações interessantes “do lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta”, apresentam aos seus leitores versões pouco conhecidas dos leigos do aquecimento global e das medidas preconizadas para evitá-lo.

Quase sempre estamos ouvindo dos ecologistas, principalmente dos mais fanáticos, que a poluição mais significativa da atmosfera terrestre se deve às emissões, nem sempre quantificadas, de dióxido de carbono, decorrente do uso de combustíveis fósseis, principalmente petróleo e carvão, como fontes energéticas. Não há quem não concorde com a afirmação de que o efeito estufa é provocado pelas grandes quantidades de dióxido de carbono lançadas às alturas.

Al Gore, prêmio Nobel e ex-vice-presidente dos Estados Unidos, para minimizar o uso de combustíveis fósseis e seus derivados, preconiza a diminuição do consumo aos cidadãos, concitando-os a “sacrificar suas sacas de plástico, seus aparelhos de ar condicionado e suas viagens supérfluas”. Os descrentes do catastrofismo contestam Al Gore. Afirmam que a humanidade é responsável por 2% das emissões de dióxido de carbono na atmosfera. O que supera esse percentual tem origem na decomposição de matéria orgânica e nos gases produzidos por animais.

Nem por isso, se deve continuar emitindo gases em quantidades cada vez maiores. É inegável que já se faz um esforço apreciável para conter as emissões de resíduos de combustíveis fósseis em quantidades comprometedoras da qualidade do meio ambiente. Já se pensou, por mais hilariante que pareça, em substituir o consumo de carne bovina por carne de canguru. Este animal australiano não tem em seu aparelho digestivo os germes que produzem os gases de efeito estufa encontrados nos bovinos.

E os bovinos poluem mais do que se imagina com seus gases e dejetos… Enquanto os adeptos de Al Gore semeiam preocupações quanto ao aquecimento do Planeta e outros dizem que as condições climáticas atuais fazem parte de um ciclo temporário, começam a surgir iniciativas para neutralizar o efeito estufa causado pela poluição originária das emissões de dióxido de carbono na atmosfera. Nasceu a geoengenharia que ganhou mais credibilidade depois da erupção do vulcão Pinatubo.

“Em 1991, uma montanha erodida, coberta de florestas, na ilha filipina de Luzon, roncou e cuspiu cinzas sulfúricas. Ocorre que o velho Monte Pinatubo era um vulcão adormecido. Em 15 de junho, o Pinatubo entrou em erupção e se manteve em atividade durante nove horas de fúria. As explosões foram tão maciças que o topo da montanha afundou sobre si mesmo, formando o que é conhecido como caldeira, uma enorme cratera em forma de panela. Hoje, o novo topo se situa quase 300 metros abaixo do cume original. Pior ainda, a região ao mesmo tempo foi varrida por um tufão. Segundo alguns relatos o céu despencou em forma de água, cinza e pedras-pomes do tamanho de bolas de golfe. Cerca de 250 mil pessoas morreram naquele dia, a maioria soterrada por telhados, e muitas outras nos dias seguintes, em consequência de deslizamentos de terra. No Entanto, graças às advertências de cientistas, a mortalidade foi relativamente pequena”.

“O Monte Pinatubo foi a mais poderosa erupção vulcânica em quase 100 anos. Duas horas depois da explosão principal, as cinzas sulfúricas já encobriam uma área com um raio superior a 35 quilômetros. Quando tudo acabou, o Pinatubo havia lançado mais de 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre na estratosfera.
Qual o efeito desse desastre ecológico no meio ambiente?”

“Acontece que o cortinado de neblina estratosférica de dióxido de enxofre atuou como uma espécie de filtro, reduzindo a intensidade da radiação solar que alcança a Terra. Nos cinco anos seguintes, à medida que o nevoeiro se desfazia, a Terra esfriou em média meio grau centígrado. Uma erupção vulcânica reverteu, ainda que temporariamente, o aquecimento global acumulado nos 100 anos anteriores.”

Além do esfriamento da Terra, a erupção do Pinatubo produziu outros efeitos benéficos. Florestas em todo o mundo cresceram com mais vigor, porque as árvores preferem a luz solar mais difusa. Poentes nunca antes vistos foram encenados pelo dióxido de enxofre levado à estratosfera. Mas, o que mais chamou a atenção dos cientistas foi o esfriamento do Planeta. Um artigo publicado na revista Science alvitrou que erupções vulcânicas em intervalos de poucos anos anulariam as causas antropogênicas do aquecimento global. É claro que ninguém, em sã consciência, vai acreditar que teremos grandes erupções vulcânicas em série para neutralizar os efeitos dos gases lançados à atmosfera pelas ações humanas.

Por isso, instituições, como a Intellectual Ventures, empresa de invenções de propriedade de Nathan Myhrvold, abriram espaço para buscar soluções do problema do aquecimento global, com base nas constatações científicas decorrentes da erupção do Pinatubo. Uma reunião de cientistas chegou a imaginar a instalação de mangueiras de jardim com o comprimento de 30 Km, sustentadas por um rosário de balões, para levar dióxido de enxofre à estratosfera e com ele formar um escudo protetor da superfície terrestre. O custo da operação seria irrisório ante os possíveis efeitos de contenção do aquecimento global.

Contudo, a instalação de mangueiras de jardim estratosféricas, embora de custo baixo, ainda parece uma solução mirabolante para o problema gerado pelo aquecimento global. É, porém, a cópia de uma solução natural dada pela própria Terra com o estrondo provocado pela erupção do Pinatubo. Talvez a Terra, que nos criou inteligentes, tenha, com o Pinatubo em fúria, mostrado aos homens que ela possui soluções próprias para os problemas que nós criamos, muito embora essas soluções possam acarretar o fim da humanidade…

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