Retorno a Platero – Por Henrique Córdova

Na doentia e inexorável solidão,
O meu lindo e colorido horizonte,
Em amargo momento de desolação,
A meus cansados olhos apareceu
Aproximou-se de minha inanição,
Mas esqueceu,
Nos confins de onde veio,
As mensagens de inspiração.
Restou-me abrir a janela do rústico casarão,
Para, imobilizado e apreensivo,
Divisar de novo, o horizonte saudoso
Há muito perdido.
Mesmo as vozes que não ouvia,
Passei a ouvi-las,
Estridentes,
De todos os cantos das vielas,
Inclusive das imaginadas,
Da minha pequena vila,
Universo sem limites e sem fim.
Quando o primeiro clarão da lua
Perolou a espraiada campanha,
O diverso reflexo
Que a meus olhos chegou,
Nasceu do luzidio lombo de Platero,
Donde partiu,
Para aninhar-se em meu coração.
Decidi, naquele instante,
Com euforia,
Reencontrar Platero
No outro dia,
Para, com ele, novamente andar
Pelas vielas de outrora
E o horizonte alargado revisitar.
Na hora aprazada, sem tardança,
Ao lombo macio de Platero,
Faceiro,
Alcei-me, com vigor inesperado
E sem olhar para o solo,
Calçado com pedras rosadas,
Logo divisei o sangrento horizonte
E nele meus olhos aguçados fixei.
Atormentavam as ideias de limite,
De fim,
Enfim, do infinito que não verei.
Não viverei,
Após testemunhar o mistério
E sem saber para que vim.
À última tarde em que saí,
Obediente à rotina de sempre,
Antes do ocaso solar,
Platero assustou-se, com os gritos infantis.
Esquivou-se, abruptamente,
De sombras entrelaçadas,
Com o que,
De seu sedoso lombo caí.
Mesmo aturdido,
Um forte e disperso alarido ouvi
E meus olhos entreabertos divisaram
Borradas figuras de crianças,
Que com adulto esforço
Tentavam levantar-me,
Assustadas, ofegantes e lacrimosas…
Platero, inquieto,
Ao redor dos que me acudiam,
Aflito,
Orneava e as mãos levantava,
Como se, com elas, cavoucasse o vento
Em rápida busca de milagroso unguento.
Desfaleci, então.
Ao despertar, atônito,
Vi-me cercado de crianças silentes,
Contritas e de ternos olhares,
Que com eles me acariciavam,
Inocentes.
Eram as mesmas crianças
Que dantes me seguiam e gritavam:
– Olha o louco, lá vai o louco, montado
E olhando para o céu…
Tentei comunicar-me com elas,
Mas meus lábios estavam selados,
Meus olhos já não se abriam
E viam, mesmo cerrados, a imagem do horizonte
Pintada em meu cérebro,
Com as frases de minha vida
E cores estonteantes,
Que de mim se aproximava,
Se agigantava
Até engolir-me…
Ainda ouvi, sem som:
– Olha o louco, lá vai o louco, montado
E olhando para o céu…
Sem falar, disse:
Os meus olhos estão muito distantes dos meus ouvidos,
Estão pregados no meu horizonte…

“Platero e eu”, base do resumo, é obra notável do espanhol Juan Ramón Jimenez.

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