Clube do livro: Raul Seixas e Gregório de Mattos

O texto de hoje foi enviado pelo nosso colaborador e amigo Adelar Ribeiro Amorim

Em tempo de pandemia, isolamento social, tristeza, insegurança… insisto no que falo há anos: Para um professor é fundamental incitar o prazer pela leitura, mostrar ao aluno o que estou lendo, falar de feiras de livros, de biblioteca, de sebos virtuais ou físicos, de Bienal Internacional do livro, de escritores, de clássicos e de lançamentos. Afinal, “ninguém ama o que não conhece.” (Santo Agostinho)

E eis que relendo meus “escritos” resolvi publicar um trecho da minha monografia intitulada “Desejos carnais, inspirações divinais em Raul Seixas e Gregório de Mattos”, que apresentei no XVII Fórum Acadêmico de Letras na USP, em São Paulo, no ano de 2006.

O desejo de escrever sobre esses dois baianos era antigo, haja vista a identificação com os poemas satíricos de Gregório de Matos e o amor pelas músicas de Raul Seixas.

“Raul Seixas possui uma obra original, respeitada, copiada, repetida, analisada e estudada, sendo até motivo constante de Teses Universitárias”. (Toninho Buda, escritor)

“Gregório de Matos deve ter sido um poeta proclamado, lido, discutido e violentamente atacado durante a sua tumultuada vida”. (Fritz Teixeira de Salles, escritor)

Poeta, boêmio e irreverente. Amado e odiado, Gregório de Matos é conhecido pelo apelido “carinhoso” de “O Boca do Inferno”, em função de seus poemas satíricos, muitas vezes soletrando a chulo em violentos ataques pessoais. É uma espécie de poeta maldito, sempre ágil na provocação, mas nem por isso distante da paixão humana, da natureza e da reflexão. Satirizando políticos e religiosos, assediando freiras, utilizando um vocabulário acessível e popular, o poeta abrasileirou o Barroco importado de Portugal: seus poemas são um espelho de um país que estava se formando.

Atualmente seus poemas satíricos são muito valorizados pelo teor sociolinguístico. Raul Seixas também é um grande poeta, boêmio e irreverente, Maluco Beleza por convicção, respeitado por uns e adorado por muitos.

O hábito da leitura (adquirido por intermédio de seu pai) faz com que Raul Seixas passe a infância trancado no quarto lendo “O livro dos porquês”, “Dom Quixote de La Mancha”, “O Tesouro da Juventude”, entre outros clássicos. Raul critica através de suas músicas a hipocrisia da sociedade baiana de sua época, de forma nua e crua, ferina e debochada. O Maluco Beleza mostrou que é possível mesclar literatura, filosofia e música. Ele realmente vive o que canta, é uma verdadeira metamorfose ambulante, justamente para não cair no senso comum, assim, não é só mais um roqueiro, É Raul, que é luar aos avessos, que soa forte como um rugido e singular como a luz da lua.

Sabemos que música e literatura muitas vezes andam juntas, cantores e compositores bebem na fonte dos livros, buscam em textos literários a base para suas composições.

Muitos escritores utilizam as doces e inebriantes melodias para transformar as notas musicais em poemas, assim como os compositores buscam nos poemas os esteios para suas letras.

Enquanto Gregório de Matos busca principalmente em Quevedo e Gôngora, a inspiração e base literária para seus poemas, Raul Seixas usa como fonte a Bíblia, Shakespeare, Nietsche, o livro “1984” de George Orwell, “Dom Quixote de La Mancha”, “O Tesouro da Juventude”, “O livro dos porquês”, “O livro da lei” (do bruxo inglês Aleister Crowley), Sartre, Julio Verne, “O despertar dos mágicos” (de Pawlls e Bergier), dentre outros.

Gregório de Matos usa seus poemas, principalmente os satíricos, para dizer o que pensa; também o faz Raul Seixas, mesclando música e literatura: (…) “Eu queria ser cantor ou escritor. E foi isso que me acompanhou, paralelamente, a vida toda. Minha formação é essa: música e literatura”. (SEIXAS apud FRANS, 2000, p. 95).

Apesar de viverem em séculos diferentes, ambos usam a mesma ironia em relação à sociedade baiana, ao Brasil e também à hipocrisia dos homens. Não é por acaso que ambos são “convidados” a sair do país, justamente por “falarem” em questões extremamente delicadas.

Gregório e Raul fazem dos poemas e das músicas uma poderosa ferramenta para criticar a sociedade; das palavras escritas e do microfone meios poderosos para “atingir o alvo”, ou seja: os leitores e os fãs.

A literatura e a arte de utilizar as palavras, cumprem, assim, o papel social de transmitir a cultura de uma determinada época.

Partindo das experiências pessoais, o poeta seiscentista e o roqueiro contemporâneo criam e recriam a realidade de forma nua e crua, em seus textos. Transmitem seus sentimentos, seus desejos, suas ideias, medos e segredos, modificando a visão de mundo, mesmo que a longo prazo, e ajudam, assim, no processo de transformação social. Muitas vezes, os poemas adquirem formas de denúncia social, de crítica à realidade, como é o caso do poema “Sátira à cidade da Bahia, em ocasião que estava a frota nela”, de Gregório de Matos; e a música “Ilha da Fantasia”, de Raul Seixas.

No Brasil, o país presencia o nascer de uma literatura própria, embora ainda frágil e ancorada aos moldes portugueses, fechada a um grupo seleto e culto, sem poder contar com um público leitor ativo. Mas começam a surgir os primeiros escritores nascidos aqui, e com eles, surgem as primeiras obras do sentimento nativista, isto é, de valorização da terra natal. Surge então Gregório de Matos (1623-1696), maior poeta do Barroco brasileiro e um dos fundadores da poesia satírica em terra “verde-amarela”. Raul Seixas (1945-1989), por sua vez, é o maior roqueiro brasileiro e um dos idealizadores da utópica sociedade alternativa.

“Ponto em boca”.(Gregório de Mattos).

“E fim de papo”. (Raul Seixas)

UM ANJO DIFERENTE
(Adelar Ribeiro de Amorim)


“Quando Gregório e Raul nasceram
Lá na velha Bahia
Veio um anjo torto
Muito torto
Embriagado.
Veio ler as suas mãos
Como não era um anjo barroco
Era um anjo muito louco
Passou noite na farra e estava rouco
Este anjo boêmio
Nas mãos trazia: Uma guitarra para o Maluco Beleza
E uma linda mulata para o Boca do Inferno
Este querubim rebelde
Não lhes prometeu uma vida fácil
Nem sessenta anos embalados em rede
(Tipo Dorival Caymmi)
Mas lhes garantiu
Ah, isso ele garantiu:
Seus poemas satíricos publicados
Quatro discos de ouro conquistados
Um corpo magro, bigode e cavanhaque
E uma monografia
Por um acadêmico da UNIPLAC
E de lambuja: a eternidade
Que alegria!!
Perto das estrelas
Porém, longe da velha Bahia!”

Em frente a casa (branca) de Gregório de Mattos em Salvador

Fundação Gregório de Mattos em Salvador

Rua Gregório de Mattos em Salvador

Túmulo do Raul Seixas em Salvador

Túmulo do poeta Gregório de Mattos na Basílica Nossa Senhora da Penha em Recife.

Adelar Ribeiro de Amorim, é professor desde 1991, formado em Pedagogia pela Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC e em Letras (Português/Inglês) pela Universidade do Planalto Catarinense – UNIPLAC, pós-graduado em Línguas Modernas/Interdisciplinaridade – Português/Inglês e em Língua Portuguesa. Professor de Literatura Infantil do curso de Magistério do Colégio São José e Língua Inglesa na Escola de Educação Básica Martinho de Haro.

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