SÃO JOAQUIM (SC) — A cena parecia impossível semanas atrás, quando as chamas devoraram a estrutura do tradicional Café Serrano, na entrada da comunidade de Santa Isabel, às margens da SC-114. Mas nesta semana, no mesmo terreno onde restaram cinzas, um novo capítulo começou a ser escrito — e ele tem o gosto do recomeço.
Ponto de parada obrigatório no trajeto entre São Joaquim e Lages há gerações, palco de memórias afetivas de moradores e viajantes e sinônimo do tradicional Torneio da Mangueira Velha, o Café Serrano nunca esteve sozinho. E foi essa rede silenciosa de afeto que se transformou, nos últimos dias, em mutirão.
A chegada que arrancou lágrimas e emocionou

Foi um dia que a família Melo não vai esquecer. Quando os caminhões carregando os primeiros containers surgiram na SC-114, rumo a Santa Isabel, amigos e familiares já esperavam no local e receberam a chegada da carga com lenços brancos balançando ao alto, em um gesto espontâneo de festa e gratidão. Buzinas, abraços e lágrimas se misturaram à poeira da estrada: ali começava, literalmente, a reconstrução.
O transporte e a doação dos containers foram viabilizados por uma forte mobilização familiar vinda do litoral catarinense. Em relato emocionado, a jornalista Bia Melo, da família proprietária do estabelecimento, descreveu o momento:
“Essa emoção de ter conseguido com que eles viessem… Nos doaram dois containers da família lá de Itajaí (tio Vorli, Silvina e os filhos, que têm caminhão e não cobraram o frete). Então a gente só comprou mais dois. O Café vai ser reconstruído com container e madeira. É o começo para depois darmos sequência à parte de madeira, e com a ajuda de todos e a força de Deus, logo vai estar funcionando novamente”, destacou Bia Melo.
Uma corrente que não parou de crescer

O que começou como um gesto familiar rapidamente ganhou os contornos de uma verdadeira corrente do bem, reunindo empresários, comerciantes e voluntários de diferentes cidades da região:
- Logística e maquinário: o guindaste de Stélio Porto (Guindastes Dakota, de São Joaquim) entrou em ação com apoio de parceiros de Brusque (Chico Vinagre) e Itajaí (Edelmar — Bastos Supermercado).
- Rede de doações: dezenas de colaboradores contribuíram com dinheiro, PIX e materiais de construção.
- Mobilização cultural: músicos regionais já se colocaram à disposição para eventos beneficentes, enquanto rifas comunitárias recebem brindes doados para reforçar o caixa da reconstrução.
“Não temos palavras para agradecer”

Passada a comoção da chegada dos containers, resta à família um sentimento que não cabe em poucas frases: gratidão.
“Dizem que é muito melhor ajudar do que ser ajudado, e concordamos plenamente. Mas, neste momento, essa ajuda está fazendo toda a diferença para termos ânimo de recomeçar. Não temos palavras para agradecer tamanha ajuda”, diz a nota de agradecimento divulgada pela família.
No terreno de Santa Isabel, entre containers recém-chegados e a promessa da madeira que virá em seguida, o Café Serrano já não é mais apenas lembrança do que foi destruído pelo fogo. É prova viva de que uma comunidade inteira decidiu não deixar essa história terminar ali.





