A Igreja eterna – Por Henrique Córdova

Conta Bocaccio, em seu Decameron, que um católico desejoso de converter um judeu, o convidou, já em última instância , vez que inócuos todos os seus argumentos, para viajar até Roma e, juntos, conhecerem a Santa Sé.

O judeu, homem sério e sequioso da verdade, aceitou a proposta e puseram-se a caminho do reino de Deus na Terra .

Em Roma, o cristão, ante tanta esbórnia, luxúria, exploração do povo, ostentação principesca do Papa e da Cúria, enriquecimento ilícito, injustiças e belicosidade, quis afastar-se da Igreja e pediu desculpas ao judeu, quando este o trouxe de volta ao seio materno, dizendo:
– Obrigado, amigo e irmão. De hoje em diante serei, como você, um católico fiel e pastor. Se sua Igreja não fosse divina e eterna, o Papa. os Cardeais e os Bispos já haveriam acabado com ela …

Os Papas da Renascença

A Renascença foi um período histórico que coincidiu com a descoberta da América por Colombo e com novos movimentos nas navegações , artes , cultura , ciência e religião , entre outras manifestações do gênio humano .
Os Papas , de 1470 a 1530 , por sua corrupção, luxúria , prepotência , irreligiosidade , ambição , nepotismo e alheamento aos reclamos de parte do alto clero e do povo , levaram a Igreja a um cisma que até hoje se agrava e desagrega .

Sisto IV ( 1471- 1484 )

Geral da ordem dos franciscanos, o Cardeal Francesco della Rovere “era um homem áspero, imperioso e implacável , que rasgou novos horizontes às possibilidades de nepotismo”.
Riario, jovem sobrinho a quem o Papa elevou à dignidade de Cardeal , em 1480 , no banquete saturnino , promoveu uma noite orgiástica sem precedentes e digna dos velhos costumes romanos .
Tudo ante a ameaça turca que se fazia sentir no calcanhar da Itália , onde Otranto já havia sido tomada .

Nada importava a Sisto , a não ser o enriquecimento da família , a qualquer custo para a Igreja… Para impulsionar e na tentativa de eternizar os seus negros desígnios , chegou a participar de uma conspirata dos irmãos Pazzi contra os Médici , da qual resultou um homicídio em plena catedral.

Inocêncio VIII ( 1484 – 1492 )

O oposto de Sisto, era amável e indeciso, além de omisso e fraco de caráter. Foi o “tertius” em uma feroz disputa pelo papado entre os poderosos cardeais Bórgia e Giuliano della Rovere, o mais hábil sobrinho de Sisto. Sob seu Pontificado, mais que em outros, os cardeais ofereciam banquetes e patrocinavam festas dionisíacas, fantasiavam-se no carnaval e desfilavam em carros alegóricos dignos da Marques de Sapucaí…

Nessa época, a legitimação dos filhos bastados dos cardeais e papas lançou aos ares um princípio respeitável instituído pela Igreja.

O que mais irritou aos romanos foi a hospedagem que o Papa deu, no seio da Santa Sé, por interesse subalterno, ao Grão Turco, o infiel.
E a Santa Igreja resistiu a tudo isso e mais…

Alexandre VI (1492 – !503)

Rodrigo Bórgia tornou-se Papa aos 62 anos, após um vida devassa conhecida da Cúria. Tinha amantes e sete filhos conhecidos e era considerado, por seus métodos de enriquecimento, um lobo junto à chancelaria da Igreja. Candidato a Papa, foi derrotado.

Na Segunda oportunidade que teve de disputar a tiara, simplesmente a comprou de seus rivais, Cardeal Della Rovere e Ascanio Sforza, a quem pagou com lingotes de ouro carregados por quatro mulas…

Naquele tempo já havia quem comprasse e quem vendesse votos… Essa compra e venda maldita persiste…

Alexandre, por envenenamento, encarceramento e outros meios, eliminou todos os seus opositores, com exceção do maior deles, Della Rovere, que, já poderoso, passou a viver fora de Roma, em verdadeira fortaleza.

César e Lucrécia, filhos de Alexandre, foram protagonistas, junto com o pai, segundo Burchard, de banquetes pornográficos que excederam, em imaginação, às bacanais mais famosas da história .

O Balé das Castanhas, sob o patrocínio de César e presidência do Papa, reuniu 50 prostitutas e convidados para um banquete no Vaticano. Entre candelabros dispostos no chão foram espalhadas castanhas, que deveriam ser catadas pelas prostitutas nuas e de quatro pés. Enquanto as “ felinas ” buscavam as castanhas , os convidados, todos nus, foram, sob gargalhadas do Papa, de César e Lucrécia, convidados a participarem de um concurso em que , os mais resistentes na arte de amar , eram premiados com véus de seda e troféus…

Dois meses depois, entre intenso gozo e risadas, o Papa e sua filha Lucrécia, num dos átrios do Vaticano, assistiram a cobertura de éguas em cio por garanhões incitados…
Roma, sob o reinado de Alexandre, segundo o Geral dos agostinianos, Viterbo Egídio, “ não conheceu lei nem divindade: foi dirigida pelo ouro, pela violência e por Vênus ”.
Alexandre morreu aos 73 anos e sua morte foi comemorada como a libertação de Roma…

Júlio II ( 1503 – 1513 )

Guerreiro, inimigo de Alexandre, sucedeu a Pio III, que governou a Igreja apenas por 26 dias.
Júlio, de forte personalidade, desbaratou o poderio de César Bórgia, que foi obrigado a fugir.

Considerado um grande Papa, por suas realizações temporais, associado a Michelangelo, legou a humanidade obras de arte imperecíveis, como os afrescos da Capela Sistina .
Precursor da “real politik”, o Papa Júlio entendia que o poder sem dinheiro era uma ridícula fantasia. O Vaticano para comandar e ser respeitado tinha que ser dono de um grande patrimônio, não importava de que origem. Permitiu, como corolário dessa concepção, o mercado das indulgências que, ao chegar a Alemanha, foi fatal para a unidade de Igreja.

Os críticos de Júlio II, embora considerem sua proteção às artes e suas conquistas em favor da Itália, o colocam entre os violentos sanguinários e os amorais, que não se absteve de promover alianças matrimoniais por conveniências.

Leão X (1513 – 1521)

Sucessor de Júlio, filho mais brilhante de Lourenço Médici, era um “bon vivant” e gozar a vida era a sua meta. Perdulário e vendilhão, explorou o povo e não mediu gastos em festas, banquetes e benesses aos seus familiares. Graças ao seu desastrado pontificado cresceu e vicejou a pregação luterana.

Clemente VII (1523 – 1534)

Este outro Médici, que sucedeu Adriano Utrecht, holandês, Papa por um ano e duas semanas, jogou politicamente até que Roma fosse saqueada.

Sua indiferença em relação aos superiores valores da Igreja fez com que o cisma se aprofundasse, seu amor pelo temporal levou-o agir em conformidade com seus antecessores, seu auto- engrandecimento e seu desprezo aos clamores dos fiéis levaram o Vaticano à derrocada.
Morto, Clemente foi retirado do sepulcro pelo povo, esquartejado e abandonado com uma espada no coração.

Após sessenta anos de insensatez dos papas, o cadáver despedaçado e abandonado, com uma espada no coração, era a Igreja, que, após todas as provações, ressuscitou para a eternidade, pela força intrínseca dos seus propósitos, jamais esquecidos pela Cúria honesta, generosa até o sacrifício e pela firmeza dos fiéis.

Se a Igreja sangra pela ação de seus detratores, ela se revigora com o sangue dos seus mártires e triunfa com o trabalho de seus humildes e autênticos evangelizadores.
Por isso,creio que as estrepolias do Bergoglio argentino passarão e a Igreja permanecerá, não sem alguns danos de longo alcance.

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