Vieira ou Dostoievski? – Por Henrique Córdova

O Padre Antônio Vieira, lisboeta, ainda jovem, veio para o Brasil, com sua família.
Ordenado sacerdote católico pelos jesuítas, andou pelo mundo e notabilizou-se como o maior orador sacro de língua portuguesa de seu tempo. Podemos dizer que jamais foi superado e que seus sermões são obras de arte oratória insuperável. Fernando Pessoa chamou-o de “Imperador da Língua”, em um de seus sonetos. No famoso Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real Portuguesa, em 1655, há a seguinte afirmação de Vieira:

“ Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos, e quem levanta muita caça e não segue nenhuma, não é muito que se recolha com as mãos vazias”.

Fiódor M. Dostoievski, russo, nascido em 1821, tornou-se um dos grandes romancistas universais do Século XIX, com obras como “Crime e Castigo”, publicada, pela primeira vez, em folhetins, no Mensageiro Russo, de janeiro a dezembro de 1866, quando o Autor contava 46 anos… Nesta obra, Dostoievski coloca na boca do personagem Loujine, o que diz ser um provérbio russo e que assim se expressa:

“Quando se perseguem muitas lebres ao mesmo temo não se apanha nenhuma”.
Claramente, as duas citações, embora em contextos essencialmente diferentes, dizem a mesma coisa. Será que Vieira, 210 anos da publicação de “Crime e Castigo” já conhecia o provérbio dito russo e o usara como suporte da construção da passagem citada de seu célebre sermão? Ou os russos adaptaram a construção de Vieira e a transformaram no seu provérbio? Ou será que não ocorreu nenhuma das hipóteses e os gênios português e russo pensaram o mesmo, com um intervalo de 210 anos?

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.