A capela – Por Henrique Córdova

Sob eterno silêncio, atrás de portas que nunca se abriram, quantos mártires, esquecidos pelo mundo, jazem, como se nunca tivessem existido?
Nem a consciência das possibilidades lhes busca os nomes ou quer saber como foram os seus atos no momento crucial da criação do sentido,
Porque desconhece o não ser, que já foi, e nem imagina como será o encontro incontornável das criaturas com a fonte, que gera sem cessar,
Para expandir mundos visíveis e invisíveis, onde os mistérios indevassáveis e universais se entrelaçam em todos os altares para a vida celebrar.

Nenhuma notícia chegará pelos raios núncios e águas batidas, por muitos séculos, nas paredes negras, que sempre ali estiveram rudes e incólumes;
As águas formarão pequenos regatos e grandes rios que, pelo inexorável caminho, sempre belamente traçado, desembocarão nos grandes mares…
E os homens delas não beberão, mas, depois, nelas se banharão, ao embalo dos movimentos moldados à força dos vendavais alheios aos azares,
Que rumarão para distantes campos, brancas montanhas e outros mares de cores várias, para lançar gotas quentes em improváveis vaga-lumes.

Tampouco, dos ares descerão imagens reveladoras dos que viveram, amaram e se transformaram depois dos nascimentos inaugurais da suprema raça;
Os astros também, longínquos e silentes, embora velozes e pertinazes, ao seguirem inalteráveis e inconfundíveis rotas, nada espelharão,
E só outro fluxo, pelas vias espalhadas através do continente da vida, percorre todos os escaninhos do corpo, para manter sempre levantada a taça,
Onde é vertido o vinho inventado nas núpcias de todos os dias e noites, quando se anda com os sonhadores e se ama aos cúmplices que dela provarão.

Então, em nome do presente, imemoriais memórias retificadas querem guardar no inferno os maus, no purgatório os redimíveis e no paraíso os bons,
Porque nunca houve e jamais haverá outro lugar para os que cumpriram o seu fadário, desapareceram e, sem consciência, só existem para os sobreviventes,
Não sofrem pelos males que causaram e não usufruem os frutos, se cresceram, do bem que cultivaram, a não ser em quem filtra seus males e dons,
Para castigar, sem infligir dor, a não ser a si mesmo e para premiar, sem poder causar prazer, a não ser a si mesmo, quando os corações são ardentes.

Imagem: Fabio Vasconcelos

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