Rosa de Sharon – Por Henrique Córdova

Engravidada, pelo amor sem raízes,
Para a terra generosa e prometida,
Em caminhão pobre, sem diretrizes
Foi por seus malfeitores impelida

Augúrios loucamente instilados e repetidos,
Sobre o infausto destino do rebento crescido,
Caíram cruéis em seus fartos seios doloridos
E levaram, assim, à morte, o recém-nascido.

As águas estivais a puseram em precipitada fuga
Pela estrada, donde veio, a velho galpão chegou
Ao fundo do qual, receosa, úmida, ficou desnuda
À frente de um menino, que cobertor lhe ofertou.

Não longe, seus ouvidos captaram o fraco gemido
De um moribundo, pai do menino, roto, esfaimado.
O leite destinado ao feto, desceu ao seio aquecido
E a morte, paradoxalmente, à vida fez seu chamado.

Sem esconder seu recato, no cobertor sujo enrolada
Ao fundo do galpão, resoluta, seu corpo hirto levou
Onde, aos pés do moribundo, deixando-se iluminada
Ao imperativo do maternal instinto, o amamentou…

“As Vinhas da Ira”

O famoso romance de John Steinbeck retrata uma etapa do desenvolvimento norte-americano, com todas as suas implicações sociais dramáticas e desumanas. Mostra que os interesses econômicos se sobrepuseram a qualquer outra consideração e que os mercados, inclusive os de trabalho, foram manipulados em favor do capital. A fome não foi barreira para suas ambições e a ganância imperou devastadora, com o apoio de um estado fundado em convicções calvinistas.

Famílias, como a dos Joad, à qual pertencia Rosa de Sharon ou Rosasharn, personagem aparentemente secundária da história, que glorifica o seu epílogo com uma forte mensagem de solidariedade, capaz de reacender a esperança na essência do ser humano, deslocaram-se, das terras donde foram desalojadas, em direção ao oeste, mais precisamente à Califórnia, em busca de trabalho nas plantações de uva, pêssego, algodão, ameixa e maçã. Encontraram obstáculos que, para serem vencidos, exigiram esforços extremos da resistência humana.

Apesar de tudo, a solidariedade e a esperança alimentaram um espírito de luta que construiu a mais poderosa nação do mundo. E a Rosa de Sharon, frágil, choramingas e sensível a loucos presságios, numa situação limítrofe, após ser abandonada pelo marido e de ter perdido o filho que trazia no ventre, foi capaz de alimentar, com o leite destinado ao natimorto, o moribundo pai de uma criança, que lhe ofereceu um sujo cobertor para agasalhar sua nudez.

Rosa de Sharon e sua mãe, para escaparem das águas de uma enchente, saíram de seu acampamento e foram para a estrada donde divisaram um velho galpão em que buscaram abrigo. Nele, encharcadas, encontraram o menino que ofereceu a Rosa de Sharon um esfiapado cobertor que cobria seu pai combalido pela fome. O menino contou que seu pai não comia há dias e que, tudo o que lhe caia nas mãos, ele lhe alcançava.

Assim, alimentado, como que da vida do pai, ele suplicava às duas mulheres a socorrerem o moribundo com um pouco de leite. Foi quando Rosa de Sharon, com o consentimento dado, com um olhar, pela mãe, dirigiu-se ao canto onde jazia o moribundo, deitou-se a seu lado, tomou-lhe o rosto com uma das mãos e o aconchegou ao seu seio, donde jorrou o leite da vida, reservado pela morte que buscou seu filho antes que ele respirasse…
Que impeliu o menino a privar seu pai moribundo do cobertor, que ofereceu a Rosa de Sharon para cobrir sua nudez?

Teria sido um ato preparatório para a suplica de leite para o moribundo ou um gesto de generosidade?

Que fez Rosa de Sharon dar seu leite ao moribundo? Um impulso de piedade ou uma retribuição ao menino pela entrega do cobertor?

Todos estavam em uma situação limite. E foi neste instante de quase desespero, que brilhou o sol da solidariedade, nascido do coração da humanidade.

E as vinhas da ira transformaram-se nas da vida

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