A alma das águas – Por Henrique Córdova

Brevemente, as águas claras do grande rio, da remota montanha afloradas, correrão ao encontro de outras, com destino traçado, para serem, pelas forças humanas, aprisionadas.

Minhas lindas e extensas várzeas desaparecerão; araucárias altas, preservadas, submergirão; répteis, roedores e outros animais e insetos menos visíveis, às encostas subirão.

De meus sonhos, quase delírios, nada sobreviverá.
Estruturas sólidas, pensadas e edificadas, nas ilhas implantadas, as copiosas águas represarão e um imenso lago nascerá, para que nele se espelhem as estrelas e se abrigue, sob águas serenas e límpidas, o jazigo de minhas ilusões…

As águas canalizadas obedecerão ordens definidas, inscritas no cimento e no aço, por mãos cerebrinas.
Disciplinadamente liberadas, passarão por máquinas gulosas, e nelas deixarão a essência buscada, que, em luzes brilhantes e forças invencíveis, virarão…

Recuperarão seu natural curso e repetirão seu fadário, até que não sintamos, nem vejamos, nem imaginemos seus leitos, outrora vestidos de belos e transparentes lençóis, agora marcados insolitamente para tempos imemoriais.

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