O solitário – Por Henrique Córdova

Desde criança, quando me contaram a história dos gansos, que, com seus núncios grasnados agressivos e insistentes, ajudaram a salvar o Capitólio, sou um admirador desses fascinantes palmípedes.

Nos açudes que rodeiam a minha casa, na Fazenda São Luiz, tenho nove deles e alimento-os todos os dias, com milho – no solo – e ração, para carpas, na água.

Falo em açudes, porque oito dos nove gansos estão sempre a oeste da casa e um do lado oposto.

Notei essa separação, quando oito gansos agrupados singram o lago oeste, com rapidez e alarido, enfeitados por lindas, pomposas e imponentes asas abertas, ao me verem caminhar em direção ao lugar donde costumo lançar ração às carpas.

O solitário, porém, no lago leste, sempre postado em uma pedra próxima à margem, permanece silente e impassível, enquanto as carpas fervilham à superfície da água, engolindo as bolotas de ração.

Passado algum tempo, como nada se modifica, passei a observar o solitário: seu pescoço e cabeça são de uma cor cinza uniforme; seus olhos, pretos e perdidos algures, são aureolados por um fio dourado; seu bico serrilhado é de um tom laranja semelhante ao das pernas e nadadeiras; suas asas, cinzas estriadas de branco, ressaltam a alvura do peito, do ventre e da cauda ou sambiquira. Sempre com o pescoço esticado, exibe, garboso, uma sobranceria enigmática.

Por que não integra o grupo?

Será um desacasalado sem condições de disputar uma fêmea com outros machos ou uma fêmea sem companheiro?

Serão os gansos monógamos fiéis?

Se forem, preciso procurar um companheiro ou companheira para o solitário (palmípede), na esperança de que a diferença de espécies entre nós dilua o repugnante rufianismo. Se não forem, aumentará a minha estranheza sobre o comportamento do ganso do lago leste.
Durante muito tempo, em vão, tentei atraí-lo para o grupo do lago oeste, pondo ração e milho entre os lagos. O solitário desprezou-a com soberba e continuou dominando sozinho o seu açude.

Será que ele é egoísta e não quer dividir nada com os outros?

Nem o açude e nem a ração?

Será que ele é mudo ou surdo ou surdo – mudo?

Nunca o vi voar, nem grasnar e só agora, surpreso, o vejo disputar alguma bolota de ração com as carpas, o que já é um progresso no campo da socialização entre diferentes espécies de animais.

Será o solitário um peixe inverossímil fantasiado de ganso, que, aos poucos vai abandonando o mundo da fantasia? Não, ele é mesmo um belíssimo ganso.
Quem pode assegurar que os gansos não pensam? Quem sabe o solitário é um filósofo, que se isola para pensar, embora haja espécie animal que pensa sem isolar-se?
Enfim, até agora, não sei explicar porque, de nove, oito gansos convivem e um vive isolado. Só sei que os oito agrupados são inteligentes, grasnam e comem muito, enquanto o solitário não grasna e come pouco.

Ás vezes, o solitário, com seu comportamento, me lembra Fernão Capelo, a gaivota de Richard Bach, que comia para viver e foi capaz de atravessar um rochedo para alcançar a luz celestial, ao invés de outras, que viviam para comer e se apagaram no anonimato.
Por favor, se alguém souber explicar-me a psicologia do ganso solitário, procure-me, que, além de pagar as despesas da viajem até o lago leste, residência fixa do palmípede misterioso, ficarei grato por qualquer informação sobre o seu comportamento.

Se não houver quem tenha uma explicação, que deve haver, para a vida do solitário, jamais ficaremos sabendo o que se passa com ele, pois se nega a ser gente para falar e nós nos negamos a ser gansos, embora, de quando em quando, estejamos grasnando.
Houve quem me aconselhasse a fazer uma pesquisa sobre os palmípedes para encontrar a explicação que procuro. Basta um clique, na tecla certa, do meu computador e tudo aparecerá, com detalhes mínimos, aos meus olhos curiosos. Pode ser certo o conselho, mas onde ficarão as minhas cogitações, por mais absurdas que sejam?

Que outro trabalho darei ao meu cérebro desocupado e exposto aos ataques daquele vírus alemão, que nos apaga a memória?

É preferível, até recomendável, pensar em asneiras do que cometer a asneira de não pensar!

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia,

    ” Enfim, até agora, não sei explicar porque, de nove, oito gansos convivem e um vive isolado. Só sei que os oito agrupados são inteligentes, grasnam e comem muito, enquanto o solitário não grasna e come pouco. ”

    Talvez, porque o que vive isolado, não grasna e come pouco, seja mais inteligente e tenha um alto grau de lealdade, característica dos gansos, com seu melhor amigo.

    Talvez, os oito gansos agrupados, não sejam tão inteligentes, mas pensem somente em seus próprios interesses.

    Como na política.

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