Noites e manhãs – Por Henrique Córdova

Quando a manhã sorriu, aquecida e ágil, desfizeram-se desejos desconhecidos, que os inesperados sonhos desenharam e pintaram com a cinza cor da vigília;

A faina, insana e repetitiva, vergou o orgulho varonil, movimentou máquinas incansáveis e gerou o alimento reclamado pelas mil forças esgotadas;

O dia encanecido, então, debruçou a cabeça pesada no travesseiro intermitente, sem a vã intenção de colorir as últimas paisagens de inéditos desejos,

Que aflorarão nas madrugadas sequenciais, envolvidos nas sagas tecidas com os fios imperceptíveis do suor derramado e supostamente perdidos.

Nessa eterna sucessão, a história preencherá os tomos fartos da realidade inventada, que criará, para novas manhãs e novos entardeceres, os enredos,

Dos quais outros desejos nascerão e buscarão, além da consciência, realizar seus desígnios na composição de todos os cenários da única e fugidia vida.

Sem delírios ou alucinações, quando a expressão pura das fontes primitivas e seculares refletir pensamentos lúcidos e hígidos, não haverá sonhos inconclusos,

Porque os desejos não sabidos enfrentarão, sem temor,
os encantados espelhos e revelarão, sem reservas, tesouros que o passado escondeu nas mentes peregrinas,

Para iluminar o universo onde já não haverá noites e as manhãs mudarão, em gargalhadas escancaradas, os sorrisos mascarados dos desejos em sonhos realizados.

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