O estado líder na suinocultura nacional convive com uma demanda crescente por porquinhos de companhia, e a contradição revela mudanças no comportamento das famílias catarinenses
Em 2024, Santa Catarina produziu 17,97 milhões de suínos para abate, segundo dados da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc).
O número representa o maior volume de abates desde o início da série histórica, em 2013, e reforça a posição do estado como líder absoluto da suinocultura brasileira, responsável por cerca de 29% de toda a carne suína produzida no país. Na Serra Catarinense, onde o agronegócio é a base da economia, esses dados não surpreendem ninguém.
O que talvez surpreenda é o fato de que, paralelamente a essa cadeia produtiva bilionária, existe no estado uma procura significativa por suínos que não vão para o prato de ninguém.
São os mini porcos de estimação, conhecidos como mini pigs, animais selecionados geneticamente para terem porte reduzido e temperamento dócil, criados para viver dentro de casa como companheiros de família.
Essa convivência entre a suinocultura industrial e o mercado de suínos pet pode parecer contraditória, mas acompanha uma tendência que se consolidou nos últimos anos em todo o Brasil. O mercado pet nacional movimentou mais de R$ 75 bilhões em 2024, conforme levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet).
O país é o terceiro maior mercado pet do mundo, com aproximadamente 160 milhões de animais de estimação. Dentro desse cenário, os pets não convencionais ganharam espaço, e os mini porcos ocupam uma fatia que cresce de forma constante.
De suíno de pesquisa a animal de companhia
A história dos mini porcos como animais domésticos é relativamente recente. Originalmente, esses animais foram desenvolvidos para atender a demandas de pesquisas biomédicas. A fisiologia dos suínos tem semelhanças relevantes com a dos seres humanos, o que os torna úteis em estudos científicos.
O problema era o tamanho: porcos comuns podem ultrapassar 200 quilos, o que inviabilizava sua manutenção em laboratórios. A seleção genética de raças menores resultou, ao longo de décadas, em animais que pesam entre 25 e 45 quilos quando adultos, medem entre 30 e 50 centímetros de altura e podem viver até 20 anos.
Segundo o professor Marcelo Carvalho, da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os mini pigs se assemelham aos porcos comuns em comportamento e proporção, mas seu porte reduzido permite a criação em ambientes domésticos.
Ele destaca que esses animais aprendem com facilidade, respondem pelo nome e podem ser treinados para usar locais específicos para suas necessidades fisiológicas.
A inteligência dos suínos é, aliás, um dos fatores que mais atraem os tutores. Pesquisas em cognição animal colocam os porcos entre as espécies com maior capacidade de aprendizado, à frente de cães em diversos testes.
Essa característica, aliada ao comportamento sociável e afetuoso, explica parte do apelo dos mini pigs como pets.
O paradoxo catarinense: suínos de abate e suínos de sofá
Santa Catarina tem uma relação centenária com a suinocultura. Regiões como o Oeste Catarinense, com cidades como Concórdia, Chapecó e Seara, construíram suas economias em torno da produção de carne suína.
O estado responde por mais de 50% das exportações brasileiras do produto, tendo superado o Canadá em 2024 e se tornado o terceiro maior exportador mundial. O Valor Bruto da Produção (VBP) da suinocultura catarinense atingiu R$ 16,36 bilhões em 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Na Serra Catarinense, a pecuária de corte e a fruticultura dominam a economia. São Joaquim, com sua produção de maçãs que responde por cerca de 34% do volume nacional e seus vinhos finos de altitude reconhecidos por Indicação Geográfica, é o retrato de uma região que vive do campo. O perfil econômico da Serra, no entanto, não impediu que a demanda por pets diferenciados chegasse também a esses municípios.
Em conversa com Rafael, proprietário da Oinque, foi relatado que Santa Catarina é um dos estados que mais compram mini porcos no Brasil. “O catarinense tem uma relação próxima com o campo e com os animais, e isso facilita a adaptação ao mini pig. Quem cresceu no meio rural entende que um suíno é um animal inteligente e sociável, e não apenas uma fonte de proteína”, explicou o criador. A Oinque, fundada em 2014, é considerada a maior criação de mini porcos da América Latina e entrega cerca de 120 filhotes por ano em todo o território nacional, com forte presença nas regiões Sul e Sudeste.
Cuidados específicos e a questão da regulamentação
Adotar um mini porco exige mais do que simpatia pelo animal. A rotina de cuidados inclui alimentação controlada (frutas, legumes e ração peletizada própria), vacinação contra doenças como erisipela, tétano e leptospirose, casqueamento regular e visitas periódicas ao veterinário.
O espaço é outro ponto de atenção. Segundo orientações da UFMG, o ideal é que o animal disponha de pelo menos dez metros quadrados, com áreas separadas para dormir, se alimentar e fazer suas necessidades.
A questão regulatória ainda gera dúvidas entre interessados. A legislação brasileira não proíbe a criação de mini pig como animal de estimação, mas muitos municípios possuem códigos sanitários que restringem a presença de suínos em áreas urbanas.
A recomendação dos criadores é que o interessado consulte a prefeitura local antes de adquirir o animal. Em boa parte das cidades, a legislação diferencia a criação comercial de suínos, voltada para abate, da posse doméstica de um único animal de companhia.
Para quem vive em áreas rurais ou em propriedades maiores, como é comum na Serra Catarinense, a adaptação tende a ser ainda mais simples. O clima ameno, com temperaturas que raramente superam os 25°C no verão, favorece o conforto dos mini pigs, animais que não transpiram e sofrem com calor excessivo.
O perfil do tutor e a mudança de comportamento das famílias
O crescimento da procura por pets não convencionais no Brasil acompanha transformações demográficas que vêm se acumulando ao longo das últimas duas décadas.
O número de famílias com filhos diminuiu, o número de pessoas morando sozinhas aumentou, e a longevidade da população trouxe uma demanda por companhia que os animais de estimação preenchem de forma crescente. Dados da Abinpet indicam que existem cerca de 1,8 animais de estimação por domicílio no Brasil.
Os mini porcos atraem, em especial, famílias que já tiveram cães e gatos e procuram um animal com características distintas. A longevidade do mini pig, que pode chegar a 20 ou 25 anos, é um diferencial em relação a cães de porte grande, que raramente passam dos 12 anos. O apego rápido ao tutor e o comportamento calmo tornam o animal compatível com a convivência com crianças e idosos.
O custo de aquisição varia conforme o criador, o sexo e a coloração do animal. Valores entre R$ 1.700 e R$ 2.000 para machos castrados e fêmeas são praticados por criadores certificados.
Animais de coloração rosada, mais raros, podem custar entre R$ 4.000 e R$ 6.000. A esses valores somam-se os custos de frete, alimentação e acompanhamento veterinário.
Uma convivência que faz sentido
O fato de Santa Catarina reunir, ao mesmo tempo, a maior produção de suínos para abate do país e uma demanda relevante por suínos de estimação não é propriamente uma contradição. É o reflexo de uma cultura que conhece bem o animal.
O catarinense que cresceu na roça, que viu suínos no terreiro, que acompanhou o trabalho da suinocultura familiar, reconhece nos mini pigs traços que outras populações urbanas só agora descobrem: a inteligência, a limpeza e a capacidade de criar vínculos afetivos com seres humanos.
Na Serra Catarinense, onde as temperaturas negativas do inverno atraem turistas e a produção de maçãs movimenta a economia, o cotidiano mantém uma conexão forte com o campo. É uma região onde escolher um animal de estimação que tenha quatro patas, focinho curto e um grunhido simpático não é excentricidade. É continuidade.
Para quem considera a ideia, a recomendação dos especialistas é direta: pesquisar criadores com histórico comprovado, verificar a legislação municipal, preparar o ambiente e, antes de tudo, entender que um mini pig não é um brinquedo nem uma fase.
É um compromisso de duas décadas com um animal que, quando bem cuidado, retribui com uma companhia que poucos pets conseguem oferecer.






