“… O prazer dos olhos é o começo do amor”. – Por Henrique Córdova

No livro IX da Ética de Nicômaco, Aristóteles, o maior filosofo da antiguidade grega, disse que o amor começa pelo olhar. Os olhos são os instrumentos de nosso ser, que nos permitem abranger uma figura em sua totalidade e, de imediato, conecta-la com a nossa. É a partir do olhar que aceitamos ou rejeitamos qualquer coisa, pela emoção que ela nos provoca. Quando nos provoca ódio, nós a repudiamos e, ao contrário, a amamos quando nos proporciona prazer e alegria.

Mas há um dito popular segundo o qual “quem vê cara não vê coração”. Duas conseqüências defluem da afirmação: a primeira nos sugere que as aparências enganam e que por trás da beleza pode morar o feio ou o contrário; a segunda pondera que outros órgãos do ser devem interferir no julgamento das coisas para modificar as emoções derivadas de enganos produzidos pelas aparências. Por isso, o visualmente feio pode, examinado e conhecido, tornar-se belo e amado, assim como o belo por fora pode ser horrível por dentro e repelido.

A afirmação aristotélica, entendida no contexto em que foi feita, relaciona o amor ao belo e digno de ser amado conforme o sistema filosófico por ele concebido e formulado. Está muito distante de Bocage, por exemplo, que define o amor como uma cobiça revestida de erotismo parcialmente freudiano “o amor é uma cobiça, que entra pelos olhos e sai pela…”.
Bocage, poeta português, é muito posterior a Aristóteles e anterior a Freud, mas em sua jocosa e libidinosa definição do amor usa elementos dos dois.

Para Freud, o amor é composto de paixão, enquanto se circunscreve à sexualidade física e de ternura, enquanto ultrapassa a paixão e mobiliza todo o ser, como corpo e alma, em direção ao objeto amado.

Em “Mulheres abandonadas”, de David Herbert Lawrence, encontramos um dialogo entre Rupert Birkin e Ursula, a professora, em que o amor é negado e só aceito em uma dimensão que ultrapassa a existencial.

Kalil Gibran, em “O Profeta”, valendo-se da interação entre seres vivos e a flora, na apreciação poética de atos puramente mecânicos de origem instintiva, traduz o amor como uma necessidade e um êxtase, que se exprimem na fusão integral dos seres, dela nascendo e transcendendo:

“Ide aos vossos campos e vossos pomares e vede como a abelha suga o mel da flor”:
“Se para a abelha a flor é uma fonte de vida, para a flor a abelha é a mensageira do amor e para ambas, o dar e o receber, são uma necessidade e um êxtase”.

Seja, o amor, o que for, como for, entre pelos olhos ou não, ele, mais que tudo, é a fonte e a essência da vida.

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