A cloroquina e a ira do médico – Por Henrique Córdova

Sempre reverenciei os médicos, desde minha infância transcorrida no interior de Santa Catarina, onde esses abnegados missionários da saúde humana dedicavam seus dias e noites, incansavelmente, à salvação de vidas, sem cogitar, previamente, de honorários.

Muitos deles, muitas vezes, recebiam sem reclamar ou recusar, como contrapartida financeira de seus serviços, porcos, galinhas, dúzias de ovos empalhados e outros tipos de produções campesinas. Alguns atendiam apelos de fazendeiros, que enviavam, a cavalo, os “próprios”, como eram denominados os seus peões, para conduzirem os facultativos até os doentes… Lembro-me de médicos que, por isso, se tornaram exímios cavaleiros e proprietários de cavalos fortes, resistentes e adequados para cobrir longos percursos. Sim, naqueles idos o juramento do médico valia e era um imperativo.

Hoje, tudo mudou. Se necessitamos de atendimento médico, devemos procurar um especialista para tratar do que não sabemos, a não ser da dor que sentimos no tórax ou do desconforto que nos atormenta o abdome…. Se a dor que sentimos é mesmo no tórax, procuramos um cardiologista, que nos pode atender três meses depois, eis que está assoberbado de trabalho e tem sua agenda comprometida.

Quando, se sobrevivermos, podemos ser atendidos, somos recebidos por uma circunspecta atendente que nos cobra previamente o valor da consulta e nos manda sentar à espera da vez de queixar-mo-nos ao médico… Por fim, somos chamados ao consultório onde expomos o que sentimos há três meses e somos auscultados, apalpados e enviados a um local onde nos submetem a um eletrocardiograma…

Cumprida a tarefa, depois de longa espera, voltamos ao cardiologista que examina as linhas onduladas fortemente impressas no papel que lhe apresentamos e ele, após examiná-las e franzir a testa, nos remete a um pneumologista, que nos manda fazer radiografias do tórax… Por felicidade, as placas de plástico negro opostas a uma fonte luminosa pelo médico, nada acusam de anormal em nossas desprecavidas entranhas. Com isso, apenas ocorre uma transmigração da dor no peito, que sentíamos, para outra pungente no bolso, que passamos a sentir, principalmente se não pagamos mensalidades de um bom e sério plano de saúde….

Sim, tudo mudou em pouco mais de meio século. Mesmo assim, continuo reverenciando e admirando os médicos, seus conhecimentos e habilidades, pois sem eles e elas eu não mais estaria aqui. Mas, tudo mudou tanto que um conceituado médico infectologista de São Paulo, a serviço do governo daquele Estado, ao ser afetado pelo “coronavírus”, enquanto coordenava a luta contra ele e o haver vencido poucos dias depois, negou-se, em nome da ética profissional e de seu “inalienável direito à privacidade”, a relatar o tratamento que o arrancou da investida gordurosa, microscópica e letal do vírus. Foi além.

Ameaçou, com as “medidas judiciais adequadas e cabíveis”, o incontido Presidente da República, que, pressuroso e desabrido como é, e como o povo o escolheu, quis mostrar aos brasileiros que a ameaça que nos confina em casa e paralisa o País pode ser conjurada e que os remédios para tanto já são conhecidos, embora não sufragados pela unanimidade dos médicos e cientistas.

Ora, se o infectado e curado é um servidor público e médico, ele forçosamente abdica do segredo profissional em favor da publicidade dos serviços que presta ao Estado. Se ele sabe como vencer o inimigo contra o qual luta, na condição de estipendiário do poder público para vence-lo, como ele pode manter em segredo a fórmula da vitória, que, segundo afirmam, se chama “cloroquina”?

Só porque é médico e obedece a um princípio ético de sua profissão ou porque foi Bolsonaro quem primeiro falou do remédio e o João Dória, seu chefe, não aceita os fatos? Se é por isso, deixe o serviço público, que deve, sempre, ser transparente e vá prestar seus bons e competentes serviços em sua clínica… UIP pode salvar vidas, como se salvou. Com certeza, um cliente seu, que também pode ser salvo, ansiará para proclamar ao mundo a magia da cura e tornar-se um herói da humanidade.

O que eu não consigo entender é o silêncio de quem sabe como vencer, é pago para vencer e não fala e não vence, porque sua ética profissional e o seu direto à privacidade exigem o seu silêncio. Será que o silêncio é a chave do faturamento de sua clínica e a sua cura a infalível propaganda da mesma?

O silêncio ditado pela profissão é mais valioso que a vida em razão da qual ela existe? Talvez a explicação tenha despontado da idiossincrática advertência do Governador de São Paulo ao Presidente Bolsonaro, segundo à qual, foram os médicos paulistas que o atenderam e o salvaram da facada que, traiçoeira e inesperadamente, recebeu durante a campanha eleitoral e que o Presidente pode voltar a necessitar deles…

Meu Deus, o que informa o mundo de valores do Governador do mais poderoso e rico Estado brasileiro? Porque o Presidente, tal como é, falou do uso da cloroquina pelo Doutor UIP, para curar-se da infecção que o afetou, é necessária uma histérica e ruidosa reação do médico e uma ridícula repercussão dada pelo Governador à sensibilidade fina do seu subordinado? Será que a fala presidencial afetou a todos os médicos do Brasil e principalmente os intocáveis de São Paulo?

Não creio, pois enquanto o Doutor UIP guardava silêncio a respeito do uso da cloroquina, o Prefeito Bruno Covas anunciava que, em todos os hospitais da rede pública municipal a cloroquina estava sendo ministrada aos portadores do “coronavirus” neles internados. Honestamente e sem a intenção de fazer qualquer proselitismo, afirmo que estou vendo em Dória, Uip e outros tantos agentes públicos montarem no vírus para viagens políticas cada vez mais distantes do interesse social e mais próximas de seus apetites pessoais, no triste momento em que se impõe ao povo brasileiro tanta dor e sofrimento.

Isto é uma mísera e mal escrita peça de ficção ou de mera fofoca e eu estou louco, ou estou lúcido e tudo o que descrevi é uma farsa e uma loucura, que merece ser denunciada?

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.