“O caçador de pipas” – Por Henrique Córdova

Recebi de minha nora, como uma homenagem ao meu desatinado amor pelos livros, o romance de Khaled Hosseini, afegão residente nos Estados Unidos. Mal terminei a sua leitura, inspirado por ela, escrevi algumas linhas, que só serão entendidas integramente pelos que, como eu, lerem a obra. Notem bem: falei em entender e não em sentir, porque toda expressão poética, por mais medíocre que seja, como é o caso, sempre se sente, embora nem sempre se entenda.
Mas, o livro de Khaled, “politicamente correto”, revela uma permanente intenção de exibir a verdade através da ironia, como ele mesmo confessa, através das palavras de Rahim Khan, personagem importante do romance, que lhe foram escritas a propósito de seu primeiro conto.

A história romanceada de Khaled, às vezes envereda pelo caminho da pieguice, sem, entretanto, nela mergulhar. Os desvios, estes sim, a encobrem, sem deixar de denunciá-la.
O ponto alto da trama aflora em meio à turbulência da vida afegã, sob o brutal e destrutivo domínio taliban. Nele, surgem os maus como vencedores e os bons como sofredores. Alguns maus são torturados pelas armas de suas culpas e por elas punidos. A eles o sofrimento enseja o momento catártico. Os bons, os que dão e se doam, encontram na dor e na morte a recompensa. São, com traços masoquistas, o instrumento da conversão dos maus e, estes, com traços sádicos, os beneficiários da dor e da morte dos mártires. Talvez, os santos, anjos e demônios sejam uma necessidade do homem e uma conseqüência da vida.

No romance, a viga de sustentação da ponte vital, pela qual se atravessa o turbulento caudal do cotidiano, é feita da possibilidade de mudar, de vir a ser bom, com a purgação das culpas, por meio do perdão. É o que sugere Amir, o principal personagem do romance, quando assim reflete:
“Olhei para o retrato”.

“Seu pai era um homem dividido em duas pessoas, dizia Rahim Khan na sua carta. Eu era a metade autorizada, a parte legitimada e socialmente aceita, a encarnação involuntária da culpa de baba (papai). Olhei para Hassan (na foto), com o sol batendo em seu rosto e notei aquela falha de dois dentes da frente. A outra metade de baba. A metade não autorizada, a que não era privilegiada. A metade que herdou a parte mais pura e nobre de baba. A metade que meu pai, lá no fundo do seu coração talvez considerasse o seu verdadeiro filho.
“Botei a foto de volta no lugar de onde a tirei. Foi então que me dei conta de algo: que essa última idéia que me passou pela cabeça não tinha provocado nenhuma dor. Ao fechar a porta do quarto de Sohrab fiquei imaginando se era assim que brotava o perdão, não com as fanfarras da epifania, mas com a dor juntando as suas coisas, fazendo as suas trouxas e indo embora, sorrateiramente e à noite”.

Entre muitas culpas, a nascida do segredo em que o baba de Amir manteve a paternidade de Hassan, pai de Sohrab, agia, na consciência daquele, a oriunda das injustiças praticadas contra o seu meio irmão, sempre leal, resignado com as maldades que o atingiam e que, muitas vezes, eram dirigidas contra Amir. Hassan, o bom Hassan, tido como filho de Ali, amava Amir e era seu escudo incondicional. Como retribuição de suas ações e sentimentos nobres, recebeu a traição, a armadilha infamante de Amir e, finalmente, tiros na nuca, juntamente com sua mulher, disparados pelos talibãs.

Sohrab, o meio-sobrinho de Amir, por este foi socorrido, ante a insistência de Rahim Khan.
Amir, depois de haver constatado que o menino sofrera os mesmos ataques sexuais de Assef, o mesmo Assef que agredira Hassan, sob seus olhares e sem seu socorro, quis levá-lo aos EUA. Após muitas peripécias, conseguiu o seu intento, não sem antes também ser salvo por Sohrab da truculência de Assef.

Nos EUA, Sohrab, que, em Islamabad, por medo de voltar a um orfanato, ainda que temporariamente, ante o que parecia uma quebra de compromisso de Amir, tentara o suicídio, sequer falava. Dormia o quanto podia e se esquivava de qualquer relacionamento. Somente esboçou um sorriso quando Amir, que buscava seu afeto, soltou uma pipa amarela e com ela derrubou outra, atrás da qual correu, como na infância fazia com Hassan…

Amir voltou ao passado para conseguir, no presente, a redenção e, para tanto, correu atrás de uma pipa que abateu em pleno vôo. A cor desta não era azul, como a que Hassan apanhara para ele, outrora… Era verde… O verde da esperança, que brotara do meio sorriso de Sohrab.

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