Novelas exemplares – Por Henrique Córdova

Varias pequenas histórias moralistas, intituladas “Novelas Exemplares”, escritas por Miguel de Cervantes Saavedra, ainda no Século XVI, contêm incontroversas atualidades, além de servirem de matriz para textos recentes de grandes autores, como Thomas Mann..

Numa das novelas, “O Ciumento”, Cervantes conta que o velho Carrizales se casou com a bela jovem Leonora e a confinou em inexpugnável vivenda, cercada por aias e guardada por um eunuco negro.

A beleza de Leonora despertou em Loyasa, moço belo e músico talentoso, a intenção de arrebatar-lhe o coração a qualquer preço. Para tanto, começou a tocar guitarra nas proximidades do portão da fortaleza de Carrizales, na esperança de ser ouvido pelo eunuco, o que, de fato, aconteceu. Daí em diante, quanto mais tocava, cada vez mais o eunuco negro se aproximava, até que, por fim, as próprias aias de Leonora passaram a ouvir a guitarra de Loyasso. Uma delas, negra, quando suas colegas correram ao portão, donde vinha o som da guitarra sedutora, disse:
– Eu, preta, fico; vocês, brancas, vão.

A preta, por ser considerada e considerar-se inferior, ficara de guarda para sinalizar às brancas qualquer movimento de Carrizales.

Não pretendo contar a história toda. Apenas o suficiente para mostrar como, à época em que Cervantes a escreveu, se mostrava o preconceito racial. Ele próprio, Cervantes, revela que o cavalo de Tróia escolhido por Loyasso foi a guitarra, por saber que os negros sofriam uma irresistível atração por certo tipo de música.

Em outra das novelas, Cervantes conta que o Licenciado Tomás Rodaja, depois Rueda e de permeio Vidriera, tornou-se soldado em Flandres por não conseguir sobreviver, em sua pátria, da profissão de advogado, apesar de egresso brilhante da famosa universidade de Salamanca.
Depois de viajar pela Itália, o Licenciado Rueda foi objeto da paixão de uma senhora que, sem poder seduzi-lo, recorreu a uma venéfica para ministrar-lhe uma poção mágica. Tomada a poção, Rueda enlouqueceu. Julgou haver perdido a carne do corpo e adquirido uma formação de vidro, apresar de conservar toda a sabedoria adquirida, tanto que, agora Licenciado Vidriera, era alvo de perguntas freqüentes e autor de respostas surpreendentes.

Interrogado sobre o que pensava dos poetas, negou-se a contestar para não ofender, como o faria, os maus e não poder exaltar suficientemente os bons. Limitava-se a glorificar a ciência poética. Não suportava e ironizava os falsos poetas, que não perdiam a oportunidade de encontrar um meio de, em reuniões, se proporem a recitar versos que, sob especial inspiração, haviam composto e, logo, sacavam do bolso um papel e liam o que ninguém apreciava. Insatisfeitos com a falta de reação da platéia forçada, perguntavam o que haviam achado dos versos e na falta de elogios, eles próprios os elogiavam, com despudor.

Conto esta passagem da novela, porque, ao ler Tônio Kroeger, de Thomaz Mann, Prêmio Nobel de literatura de 1929, com os Buddenbroocks, o romance da decadência de uma família alemã durante quatro gerações, encontrei a mesma opinião sobre os falsos poetas. O Tônio, de Mann, execra o Tenente que, em uma festa, se dispõe a recitar modestamente, versos de sua composição.
Incrível coincidência.

Coincidência?

Não sei se Thomas Mann leu Cervantes ou se ambos foram visitados pelo mesmo espírito que odiava os falsos poetas…

1 COMENTÁRIO

  1. Meus pêsames,a toda a família do sr FAVERO….Pois pessoas como ele,fazem a diferença… Também na certeza que junto ao pai,encontrará uma linda morada,pois o que fizemos de bom nessa vida serve de matéria prima para construção de tudo o que nossa alma precisa para o seu derradeiro repouso🙏🙏🙏

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