24 horas e anos – Por Henrique Córdova

O horizonte, além da elevação, recortado por centenárias araucárias, róseo, violáceo, evoca a intimidade, a beleza absoluta da criação;
Feito alma, rabiscado, em instantâneos melancólicos, pela móvel silhueta das aves retardatárias,
Empalidece sem remissão, até verter, gota a gota, todas as suas cores e matizes, na escuridão.
Misteriosos, invisíveis reis e séquitos, com imensos candelabros de bruxuleantes luminárias,
Formam o cósmico cortejo que velará, prestes a ressuscitar, o noivo revigorado da aurora …

E recomeça a ciranda da vida, para novamente entardecer e amanhecer.

Então, não vejo as palmas vermelhas oscilando em seus pendões entumecidos, nem sinto seus perfumes,
Não encontro em meu caminho incerto e íngreme as margaridas de cérebro amarelo e asas brancas,
Apenas, vejo rosas claras, rosas e vermelhas, sob a luz imprevisível e fugidia de intermitentes vaga-lumes,
Enquanto pelas velhas calhas enferrujadas escorrem vagarosamente degeladas águas puras e francas.

Macieiras e cerejeiras desfolhadas e enfileiradas parecem ossadas fantasmagóricas,
seus galhos, braços disformes e múltiplos, estão crivados de nódulos rígidos e mortos,
à espera dos dardos primaveris, que lhes penetrem a pele, para ressurreições alegóricas,
e consumado o natural ciclo, rebentem em mágicas flores para os insetos absortos.

Flores multiplicadas, beijadas,fecundadas e transformadas em frutos e outros perfumes…

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