Padre Vieira e seus prodigiosos sermões, para serem lidos pausadamente, com calma, atenção e meditar – Por Henrique Córdova

“Sabeis por que vos querem mal os vossos inimigos? Ordinariamente é porque vêem em vós algum bem que eles quiseram ter, e lhes falta”. (Primeira sexta-feira da quaresma, 1649)
“Bem digo eu logo, que isto que no mundo se chama amor, é uma coisa que não há, nem é. É quimera, é mentira, é engano, é uma doença da imaginação, e por isto basta para ser tormento. Pode haver maior tormento que amar, quando menos, em perpétua dúvida, amar em perpétua suspeita de ser, ou não ser amado? Pois este é o inferno sem redenção, a que se condenam todos os que amam humanamente, e tanto mais, quanto mais amarem. Ouvi algumas palavras, que tendes ouvido muitas vezes, mas com uma consideração, em que nunca reparastes: Fortis est ut mors dilectio, dura sicut Infernus aemulatio. O amor é forte como a morte, e o ciúme cruel como o Inferno”. (Primeira Sexta-Feira da Quaresma, 1644)

“Amar e não ser amado, é o maior tormento: ser amado e não amar, é a maior injustiça. Mas aquilo é padecer a sem-razão, isto é fazê-la: logo melhor é amar e não ser amado, que ser amado e não amar, porque amar e não ser amado é ser mártir; ser amado e não amar é ser tirano”. (Idem)

“Primeiramente parece ser mais dificultoso amar a quem me aborrece, do que aborrecer a quem me ama. Provo. O agravo com que me ofende o inimigo, é dor no coração próprio; a correspondência com que falto ao amigo, é dor no coração alheio; e no remédio das dores sempre se acode primeiro à que mais lastima, e sempre é mais sensitiva a que está mais perto. Logo mais natural é no homem o ódio ao inimigo, que o amor ao amigo; porque no ódio ao inimigo acode-se à dor própria com a vingança; no amor ao amigo acode-se à dor alheia com a correspondência. Mais. Quando amamos a quem nos ama, governa-se , governa-se a vontade pela razão; quando aborrecemos a quem nos aborrece, move-se o apetite pela ira; e os ímpetos da ira sempre são mais fortes que os impulsos da razão: sempre obram mais facilmente e eficazmente os ofendidos , que os obrigados; porque a ofensa corre por conta da honra; a obrigação por conta do agradecimento: e mais sofrível é o nome de desagradecido, que a nota de afrontado. Mais ainda. Quando amo a quem me ama, pago o que devo; quando me vingo de quem me ofendeu, pagam-me o que me devem; e quem há que não seja mais inclinado a receber a satisfação, que a pagar a dívida? Mais dificultoso é logo deixar de aborrecer a quem nos aborrece, que deixar de amar a quem nos ama. Só parece que está a experiência contra a resolução; porque sendo no mundo mais as ofensas que os benefícios, são mais as ingratidões que as vinganças: logo os homens naturalmente parece que são mais ingratos que vingativos. Mas não é assim. Porque para a vingança é necessário o poder, e para a ingratidão basta a vontade. E se é menor o número das vinganças, é por serem os homens mens poderosos, e não por serem menos inimigos”.(Idem)

“O juízo de si mesmo ( como acabamos de ver emenda-se; e o juízo dos homens? Despreza-se. Entra pois o juízo dos homens a presentar-se diante do tribunal da penitência: e não vem com os olhos vendados, como o juízo de si mesmo; mas com todos os sentidos e com todas as potências livres, e muito livres; porque com todas julga todos. Traz livres os olhos , porque julga tudo o que vê; traz livres os ouvidos, porque julga tudo o que ouve; traz livre a língua, porque publica tudo o que julga; e traz livre mais que tudo a imaginação, porque julga e condena tudo o que imagina”.(Quarta Dominga do Advento)

“Se o dia dos bens é véspera dos males; para merecer uma desgraça, basta ter sido ditoso;.” (Sermão dos bons anos)

“Por duas razões se persuadem mal os homens a crer algumas cousas, ou por muito dificultosas, ou por muito desejadas…” (Idem)

“Deixou Cristo o nome de rei, e tomou o de salvador, porque estimava mais nome de piedade que o título de majestade. O nome de rei era nome majestoso, o nome de Salvador era nome piedoso; o nome de rei dizia imperar, o nome de Salvador dizia libertar, e fazendo o Senhor a eleição pela estimação, tomou o de nosso remédio, deixou o de sua grandeza”. (Idem)
“O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo. O querer sem o poder é fraco, o poder sem o querer é ocioso, e deste modo divididos são nada. Pelo contrário o querer com o querer é eficaz, o poder com o querer é ativo, e deste modo juntos e unidos são tudo.” (Terceira Dominga, Post Epiphanian)

“.. Temos visto a grande conveniência e excelência mais que humana da primeira proporção do querer com o poder, que é querer cada um somente o que pode. A segunda é a dos que excedem esta medida, e querem mais do que podem, com os quais agora falaremos. E que lhes direi eu? Digo geralmente senhores (porque os senhores são os que mais ordinariamente se não querem medir, ainda que seja consigo mesmos) que para desengano deste mesmo desejo, e desengano desta mesma vaidade, bastava só a consideração do erro que lhe hão de achar no fim, e fora melhor atalhar no princípio. Considerai que querendo mais do que podeis, não só destruís o vosso poder, senão também o vosso querer. Porque se eu quero mais do que posso, clara está que hei de perder o que posso e não hei de conseguir o que quero.”(Idem)

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