Odores – Por Henrique Córdova

O hálito da curucaca morta,
Sob o poste, à beira da estrada,
Com o recurvado bico entreaberto,
Impediu-me de comer a torta,
Para o grande Natal preparada,
Agora transformado em frio deserto.

O céu já esquecido do desenho de suas asas,
O entardecer empobrecido de suas cores e sons,
As araucárias desfalcadas de seus inquilinos certos,
Não ligaram para as novas linhas de outras casas,
Não ofereceram às moças faceiras novos batons,
Nem livraram os pobres dos intempestivos apertos.

O céu voltou a ser palco de ocasionais revoadas,
O entardecer, grisalho, pintou-se de novas cores,
As araucárias e os cedros reabriram as portas
Para a vida receber, em seguro abrigo,
Deixando à morte a exalação de odores
Encerrados em criptas veladas,
Sem celebração.

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