Estações – Por Henrique Córdova

O sol, permanente amigo viajante, afastou-se em velocidade sideral,
Meu coração arrefeceu seus ímpetos sociais e recolheu-se na inclemência da solidão,
Quanto mais o acabrunhado viandante se afasta em trajetória astral,
Mais tépida e encolhida, a corda outrora vibrante do imortal e sonoro violão.

E o menino trigueiro, com estrepe no pé, escondeu-se no hermético sótão …

A distância revelou a cor desmaiada do ouro esquecido, que veloz se afasta,
As aves desapareceram, ao tilintar espaçado dos frágeis, finos, plenos e violáceos cristais,
Os campos gelados empalidecem; casam-se com tênue e negra geada nefasta,
As torres tentam alcançar o astro, para envolvê-lo na suave voz dos misteriosos missais.

E a menina de transas negras, de macacão rosa, surpreendeu os tiritantes comensais …

Desconfiado, e aos poucos, retorna com nova cabeleira em chamas para aquecer as flores,
Entre variegado trinar de pássaros canoros e o encanto da vós de outros privilegiados tenores,
Quando reverdecem os pastos povoados de animais que escaramuçam ridentes,
E moçoilas audazes exibem faceiras seus dotes viçosos aos possíveis pretendentes.

E o menino alegre, de mangas curtas e pés sarados, a todos mostra seus alvos dentes …

No auge de sua força, na plenitude de sua luminosidade, envolve a noiva em seus braços,
Deixa nus, sem escandalizar, mas prestes a marcar, os torsos presos pelos seus laços,
Amadurece todos os frutos gerados e nascidos do fantástico conúbio eterno,
Celebrado pelo mestre universal, que não esquece os próximos outono e inverno.

E a menina, inocente, permite à brisa moleque levantar sua saia ao doce olhar materno …

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.